Resumo
Relatório da Wood Mackenzie destaca 2026 como um ano crucial para decisões sobre os projetos Mozambique LNG e Rovuma LNG, com Moçambique a enfrentar um momento decisivo para se afirmar como um dos principais produtores globais de GNL. A Wood Mackenzie salienta a importância de decisões-chave a serem tomadas este ano para concretizar esta ambição. Os projetos em questão representam os maiores investimentos previstos na região nos próximos cinco anos, com destaque para o Mozambique LNG e o Rovuma LNG, que estão em fases decisivas. A validação económica destes projetos é essencial num contexto de inflação de custos e maior escrutínio ESG, sendo fundamental para a consolidação do estatuto de Moçambique no mercado global de GNL.
O relatório é claro ao afirmar que “key decisions must be made in 2026” para que Moçambique concretize a ambição de se tornar um dos cinco maiores produtores globais de LNG até meados da década de 2030.
Esta formulação não é retórica. Ela reflecte o facto de que três projectos de dimensão global se encontram em fases decisivas e representam, em conjunto, o 1.º, 2.º e 4.º maiores investimentos upstream previstos na África Subsaariana nos próximos cinco anos.
Trata-se de uma concentração de capital sem precedentes na história económica do País.
Moçambique: Ano Pivotal Para O LNG
A Wood Mackenzie analisa particularmente a conjuntura do mercado de LNG em Moçambique, Pais que surge como um dos casos mais estratégicos. O relatório refere explicitamente, o Mozambique LNG (13,1 mtpa) que se encontra na fase final de revisão de custos históricos após o levantamento da força maior e, mais recentemente, a retoma do projecto, que esta etapa é determinante para revalidar a viabilidade económica num contexto global de inflação de custos e maior disciplina de capital.
A Wood Mackenzie avança que o projecto Rovuma LNG (18 mtpa), por sua vez, deverá concluir o FEED no início de 2026, acrescentando que o modelo modular, com mini-trains faseáveis, oferece flexibilidade estratégica e pode facilitar uma decisão final de investimento ainda este ano.
Paralelamente, Coral Norte FLNG representa, para a consultora, a continuidade da estratégia offshore, com objectivo de reduzir significativamente o tempo de desenvolvimento face ao Coral Sul.
Em conjunto, estes projectos correspondem ao 1.º, 2.º e 4.º maiores investimentos upstream previstos na região nos próximos cinco anos. Trata-se de uma concentração de capital sem precedentes na história energética moçambicana.
Mozambique LNG: Reconstruir Confiança Num Ambiente De Capital Selectivo
O projecto Mozambique LNG (13,1 mtpa) é o primeiro grande teste, afirma a Wood Mackenzie, para de seguida identificar que, depois do levantamento da força maior e da extensão da licença, persiste o “the last hurdle to resuming activities is a review of historical costs”, ou seja, “o último obstáculo para a retoma das actividades é a revisão dos custos históricos”, processo esperado para o primeiro trimestre de 2026 .
Num contexto global onde as majors adoptam disciplina de capital rigorosa e priorizam projectos de retorno previsível, a validação económica revista é essencial. Não se trata apenas de retomar obras; trata-se de revalidar um modelo financeiro num ambiente pós-pandemia marcado por inflação de custos, reconfiguração de cadeias logísticas e maior escrutínio ESG.
Se esta etapa for concluída com sucesso, Moçambique enviará sinal forte de que o risco operacional e securitário está novamente sob controlo — condição essencial para mobilização de financiamento internacional.
Rovuma LNG: Escala Que Pode Alterar A Geografia Do LNG Africano
A O Rovuma LNG (18 mtpa), operado pela ExxonMobil, acrescenta dimensão transformadora. O relatório destaca que o seu desenho modular “offers flexibility”, permitindo até doze mini-trains de 1,5 mtpa e potencial faseamento do investimento.
Essa modularidade não é apenas técnica; é estratégica. Permite distribuir risco de capital ao longo do tempo e adaptar decisões a condições de mercado, num período em que o LNG enfrenta concorrência crescente de projectos no Qatar, Estados Unidos e Canadá.
Uma decisão final de investimento (FID) em 2026 teria impacto sistémico. Colocaria Moçambique num grupo restrito de países com múltiplos megaprojectos de LNG onshore em simultâneo, reforçando massa crítica industrial e capacidade exportadora.
Coral Norte: A Prova De Maturidade Operacional
No segmento offshore, Coral Norte surge como continuidade lógica da experiência adquirida com Coral Sul. O objectivo de reduzir o ciclo de desenvolvimento em cerca de 40% representa aposta clara na eficiência.
Se concretizada, conclui a consultora, a redução consolidará reputação do País como jurisdição capaz de executar projectos FLNG em prazos competitivos, elemento crucial num mercado onde timing e custos determinam vantagem competitiva.
O Factor Regulatório E A Equação De Risco
O relatório identifica um “wildcard” regulatório relevante: a decisão governamental sobre possíveis alterações à Lei do Petróleo, incluindo um direito de “back-in” estatal de 40%, bem como clarificações relativas à obrigação de mercado doméstico de 25% aplicável ao LNG.
Estas medidas, afirma a Wood Mackenzie, podem reforçar participação nacional, mas exigem calibragem cuidadosa. Num sector intensivo em capital e de horizonte de investimento longo, previsibilidade contratual é determinante para reduzir prémio de risco e custo de financiamento. Ajusta.
A questão central é de equilíbrio: maximizar benefícios nacionais sem comprometer atractividade internacional. Sublinha.
Impacto Macroeconómico: Transformação Ou Oportunidade Perdida
A Wood Mackenziem admite que, se os projectos avançarem dentro do horizonte esperado, o impacto na economia moçambicana poderá ser estrutural.
A balança externa seria reforçada por exportações de elevado valor, as reservas internacionais tenderiam a aumentar de forma sustentada e as receitas fiscais associadas a impostos, dividendos e participações poderiam redefinir trajectória orçamental de médio prazo.
Porém, recorda, a experiência internacional demonstra que riqueza extractiva não garante automaticamente diversificação económica. A transformação dependerá da capacidade de converter receitas do LNG em investimento produtivo, infra-estruturas resilientes e fortalecimento do tecido empresarial local.
2026: Ano De Consolidação Ou De Novo Adiamento
A diferença entre promessa e consolidação reside nas decisões que serão tomadas nos próximos meses. O relatório não sugere inevitabilidade; sugere janela de oportunidade.
Se a retoma do Mozambique LNG for efectiva, se o Rovuma LNG avançar para FID e se o enquadramento regulatório oferecer previsibilidade suficiente, Moçambique poderá consolidar estatuto de potência emergente do LNG.
Caso contrário, o país arrisca prolongar ciclo de expectativa que tem caracterizado parte da última meia década.
É dentro dessa leitura que, para a Wood Mackenzie, 2026, portanto, poderá não apenas definir o ritmo do sector energético, mas influenciar profundamente a trajectória económica de Moçambique na próxima geração.
África Subsaariana Recupera Massa Crítica De Produção
A África Subsaariana entra em 2026 com uma inflexão clara na sua trajectória produtiva. Segundo o relatório Sub-Saharan Africa upstream: 5 things to look for in 2026, a produção regional de petróleo e gás deverá ultrapassar 6 milhões de barris equivalentes por dia (boe/d) — “a remarkable turnaround after falling below 5 million boe/d in 2022”.
Este regresso ao patamar pré-2015 não é meramente estatístico. Representa recuperação de confiança, aumento de actividade de perfuração e maturação de projectos que tinham sido adiados por volatilidade de preços, desinvestimento e instabilidade política.
Nigéria: Reconfiguração E Retoma Acima Dos 2 Milhões De Barris
A Nigéria surge como principal motor da expansão. Após anos de declínio e desafios operacionais, operadores locais que adquiriram activos de majors estão agora a executar campanhas intensivas de perfuração.
O relatório destaca que a produção de líquidos poderá voltar a superar os 2 milhões de barris por dia — um nível não observado desde 2019. Este movimento é relevante não apenas para a economia nigeriana, mas para o equilíbrio global da oferta africana, que vinha perdendo quota no mercado internacional.
Angola Consolida Novo Ciclo De Investimento
Em Angola, o desenvolvimento do Agogo Integrated West Hub adicionou um FPSO com capacidade de 120 mil barris/dia, enquanto o New Gas Consortium deverá assegurar fornecimento superior a 1 bcfd à Angola LNG a partir de 2026.
O gás assume papel crescente na estratégia angolana, numa tentativa de compensar o declínio natural de campos maduros de petróleo. A aposta em novos hubs e em integração com projectos de LNG demonstra esforço deliberado para manter relevância regional.
Namíbia: Do Entusiasmo Exploratório Ao Teste Comercial
Após quase quatro anos de descobertas expressivas na Bacia de Orange, a Namíbia enfrenta o que o relatório classifica como um momento “make-or-break” .
O desafio deixou de ser geológico. Passa agora por decisões comerciais, aprovação de planos de desenvolvimento, definição fiscal e autorizações ambientais. Sem progressos concretos em 2026, decisões finais poderão ser adiadas para 2027 ou além, com impacto na percepção de risco regional.
África “Aberta Para Negócios”
O relatório identifica também revitalização das rondas de licenciamento. Nigéria, Guiné Equatorial, Angola e outros países estão a oferecer novos blocos, acompanhados por maior flexibilidade fiscal e contratual.
Este ambiente competitivo reflecte tentativa concertada de atrair capital num momento em que investidores globais equilibram oportunidades em mercados maduros e emergentes.
O Que Está Em Jogo Em 2026
Se Nigéria e Angola consolidam a retoma produtiva e Moçambique avança com decisões estruturantes no LNG, a África Subsaariana poderá recuperar parte da relevância perdida na última década.
Para Moçambique, porém, o peso é maior. 2026 não será apenas um ano de crescimento regional. Será o ano que poderá definir se o país transforma recursos geológicos excepcionais numa plataforma económica sustentável, com impacto fiscal, industrial e geopolítico duradouro.
Fonte: O Económico






