Governo reforça coordenação institucional, mobiliza reservas logísticas e admite limites operacionais perante a dimensão dos impactos humanos, agrícolas e económicos das inundações.
As cheias que atingem o sul e centro de Moçambique estão a expor, com particular acuidade, os limites operacionais do Estado na resposta a choques climáticos de grande escala, ao mesmo tempo que pressionam as cadeias de abastecimento, a estabilidade de preços e a capacidade produtiva do sector agrícola, obrigando o Governo a activar mecanismos excepcionais de coordenação e logística.
Governo reforça coordenação e resposta institucional
No terreno, a Primeira-Ministra, Benvida Levi, reconheceu que a prioridade imediata passa por garantir uma assistência mais humanizada às populações afectadas, assegurando abrigo, alimentação, água potável, vestuário e produtos de higiene, num contexto em que milhares de famílias perderam praticamente todos os seus bens, incluindo documentação civil.
Paralelamente, o Presidente da República, Daniel Chapo, orientou a instalação de uma sala de operações de emergência na Presidência da República, com o objectivo de centralizar a coordenação inter-institucional, acompanhar a evolução da situação no terreno e assegurar uma resposta integrada às necessidades dos afectados.

Pressões económicas e risco inflacionário local
No plano económico, a situação começa a reflectir-se de forma visível nos mercados locais, sobretudo na província de Gaza, onde se regista uma subida dos preços dos bens de primeira necessidade, com maior incidência nas cidades de Xai-Xai e Chibuto, afectando particularmente populações deslocadas e reassentadas.
Perante este cenário, o Governo recomendou a mobilização das reservas existentes em Manica, Sofala e Tete, com vista a reforçar o abastecimento de Gaza e mitigar riscos de escassez e especulação de preços, reconhecendo que a estabilidade da oferta constitui um instrumento crítico de contenção de tensões sociais e económicas em contexto de emergência.
Agricultura e pecuária entre os sectores mais afectados
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres indicam que as cheias já provocaram a inundação de mais de 72 mil casas, das quais cerca de 1.600 ficaram totalmente destruídas. No sector agrícola, mais de 105 mil hectares de áreas cultivadas foram inundadas, com perdas totais em mais de 37 mil hectares, afectando directamente mais de 47 mil agricultores.
A província de Gaza destaca-se igualmente pelas perdas significativas no sector pecuário, com dezenas de milhares de cabeças de gado bovino, caprino e suíno afectadas, o que compromete não apenas o rendimento das famílias rurais, mas também a reposição futura da capacidade produtiva local.
Logística, transporte e soluções alternativas
Entre as medidas em avaliação, o Governo admite recorrer à via marítima para o transporte de alimentos a partir do Porto de Maputo para Gaza, aproveitando infra-estruturas recentemente montadas no contexto da exploração de areias pesadas em Chongoene. A solução visa reduzir constrangimentos logísticos, assegurar fluxos regulares de abastecimento e minimizar custos num contexto de vias rodoviárias danificadas.
Emergência climática com implicações estruturais
Apesar de reconhecer que o sistema de aviso prévio contribuiu para reduzir perdas humanas mais elevadas, o vice-presidente do INGD admitiu que os meios actualmente disponíveis são insuficientes face à dimensão da calamidade. Desde o início da época chuvosa e ciclónica, em Outubro de 2025, os fenómenos climáticos extremos já causaram mais de uma centena de mortes e dezenas de feridos em todo o país.
Com a época chuvosa prevista prolongar-se até Abril, o episódio volta a sublinhar a necessidade de reforço estrutural dos mecanismos de prevenção, planeamento territorial, resiliência agrícola e financiamento climático, sob pena de estes choques continuarem a traduzir-se em custos humanos e económicos elevados.
Fonte: O Económico






