Por: Gelva Aníbal
Quando o Governo anunciou, a 9 de janeiro de 2026, o lançamento do concurso para expandir a banda larga nas zonas rurais, a reação foi de expectativa, entusiasmo e, ao mesmo tempo, desconfiança. Não porque o projecto seja irrelevante, pelo contrário, mas porque, em Moçambique, iniciativas desta dimensão já foram anunciadas antes e não houve avanço.
Falar de inclusão digital no país é falar de desigualdade. Basta sair dos centros urbanos para perceber que, em muitas comunidades, o acesso à internet ainda é instável, caro ou simplesmente inexistente. Para milhares de estudantes, camponeses e pequenos comerciantes, estar offline significa ficar à margem da informação, do mercado e até dos próprios serviços do Estado.
É por isso que o Projecto de Aceleração Digital de Moçambique (PADIM), financiado pelo Banco Mundial, não pode ser tratado como mais um programa técnico. A questão não é apenas instalar infra-estruturas, mas garantir que a conectividade funcione, seja acessível e tenha impacto no dia-a-dia das pessoas.
Há também um ponto que raramente é discutido com franqueza, muitos destes projectos, aparentemente, acabam beneficiando primeiro as zonas onde a implementação é mais fácil ou mais lucrativa para os operadores. As localidades verdadeiramente remotas, onde o acesso é mais urgente, ficam para depois ou ficam de fora. Se o objectivo é reduzir o fosso digital, esta lógica precisa de ser invertida.
A inclusão digital não se mede apenas pela existência de rede, mas pela capacidade das pessoas usarem essa rede para estudar, trabalhar, informar-se e participar na vida cívica. O envolvimento do Banco Mundial levanta expectativas quanto à transparência e ao rigor do processo, mas isso não isenta o Estado moçambicano da sua responsabilidade. A sociedade precisa de saber onde, quando e como a banda larga será expandida e, sobretudo, precisa de ver resultados concretos.
Num país jovem, com grades desafios sociais e económicos, a internet deixou há muito de ser um luxo. É uma ferramenta básica de desenvolvimento e cidadania. A expansão da banda larga rural pode ser um passo decisivo nesse caminho, mas só se deixar de ser um anúncio bem escrito e passar a ser uma mudança sentida no terreno.






