Decisão dividida revela divergências internas sobre o ritmo da política monetária, enquanto Jerome Powell aponta para inflação ainda elevada, mercado laboral em estabilização e riscos macroeconómicos em atenuação.
A Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu manter inalteradas as taxas de juro no intervalo de 3,5% a 3,75%, na sua primeira reunião de 2026, confirmando as expectativas do mercado e reforçando uma estratégia de prudência num contexto de economia resiliente, inflação ainda acima da meta e sinais de estabilização do mercado de trabalho.
Economia surpreende pela resiliência, segundo o Fed
No final de uma reunião de dois dias, a Federal Reserve optou por preservar a taxa directora, uma decisão aprovada por 10 votos contra 2. O presidente da instituição, Jerome Powell, afirmou que “a economia voltou a surpreender pela sua força”, sublinhando que o actual enquadramento macroeconómico permite ao banco central adoptar uma postura de observação cautelosa.
Segundo Powell, a actividade económica continua a expandir-se a um ritmo sólido, sustentada pelo consumo privado e pelo investimento, num contexto em que o impacto cumulativo do aperto monetário ainda se faz sentir de forma gradual.
Inflação ‘algo elevada’ continua a condicionar decisões
Apesar dos progressos registados nos últimos trimestres, a inflação permanece “algo elevada”, mantendo-se cerca de um ponto percentual acima da meta de 2% do Fed. A autoridade monetária reconhece sinais positivos, em particular no segmento dos serviços, mas alerta que o processo de desinflação ainda não é suficientemente robusto para justificar um novo ciclo de cortes.
O recente aumento dos preços das commodities, aliado ao impacto residual de tarifas comerciais, surge como um factor adicional de risco, podendo atrasar a convergência da inflação para níveis considerados compatíveis com a estabilidade de preços.
Mercado de trabalho dá sinais de estabilização
Um dos elementos centrais da avaliação do Fed prende-se com o mercado laboral. O comunicado refere que os ganhos de emprego se mantêm modestos, mas suficientes para acompanhar o crescimento da população activa, num contexto em que a taxa de desemprego caiu para 4,4% em Dezembro.
O Comité retirou, inclusive, a referência anterior ao aumento dos riscos de deterioração do emprego, sinalizando uma leitura mais equilibrada e menos preocupada com um abrandamento abrupto da actividade económica.
Decisão dividida expõe divergências internas
Apesar do consenso alargado, a decisão não foi unânime. Os governadores Christopher Waller e Stephen Miran votaram a favor de um corte de 25 pontos base, reflectindo divergências internas quanto à necessidade de aliviar mais cedo as condições financeiras.
Estas dissensões ilustram o debate em curso dentro do Fed sobre o equilíbrio entre a necessidade de consolidar a desinflação e o risco de manter taxas demasiado restritivas por um período excessivamente prolongado.
Fed aponta para decisões reunião a reunião em 2026
No comunicado, o Comité evitou qualquer indicação concreta sobre o calendário de futuros cortes, reiterando que “a extensão e o momento de ajustamentos adicionais” dependerão dos dados económicos e das perspectivas para a inflação e o emprego.
Analistas interpretam esta linguagem como sinal de uma pausa monetária prolongada, com expectativas de novos cortes apenas a partir do segundo semestre de 2026, caso a inflação apresente uma trajectória mais clara de convergência para a meta.
Pressão política reacende debate sobre independência do banco central
A reunião decorreu num ambiente politicamente sensível, marcado pelas críticas reiteradas do Presidente Donald Trump à actuação do Fed e pela expectativa em torno da nomeação do sucessor de Jerome Powell, cujo mandato termina em Maio.
Questionado sobre a independência do banco central, Powell deixou um aviso claro, sublinhando que a política monetária deve permanecer ancorada em dados económicos e não em pressões políticas. O tema ganhou especial relevo após a divulgação de uma investigação criminal relacionada com declarações de Powell ao Congresso, um processo que o próprio classificou como uma tentativa de intimidação institucional.
Reacção contida dos mercados financeiros
Os mercados reagiram de forma moderada à decisão. Os principais índices bolsistas norte-americanos encerraram praticamente inalterados, enquanto a yield das obrigações do Tesouro a 10 anos subiu ligeiramente para cerca de 4,25%, reflectindo uma reavaliação prudente das expectativas de cortes no curto prazo.
Nos mercados de futuros, Junho surge agora como o momento mais provável para o próximo ajustamento da taxa directora, embora com elevada incerteza associada à evolução da inflação.
Decisão do Fed prolonga custos elevados de financiamento à escala global
A manutenção das taxas no intervalo de 3,5%–3,75% reforça um cenário de normalização monetária lenta e de juros próximos do nível neutro por mais tempo. Este enquadramento prolonga condições financeiras restritivas à escala global, com implicações directas para os mercados emergentes, incluindo maior pressão sobre moedas, custos de financiamento externo elevados e maior selectividade do investimento internacional.
Fonte: O Económico




