Por: Alfredo Júnior
Dizem que, nas águas calmas e traiçoeiras das lagoas e rios do sul de Moçambique, sobretudo em Gaza e Inhambane, mas também em algumas margens de Maputo, vive Nhamataca. Metade homem, metade criatura marinha, aparece quando menos se espera. Os mais velhos juram que ele não persegue inocentes, persegue os descuidados. Não os descuidados da alma, mas os que viram costas àquilo que sustenta a vida: a água, a natureza, o respeito.
Cresci a ouvir que Nhamataca levava crianças que brincavam sozinhas no rio. Hoje, penso que a história nunca foi só para assustar. Era um lembrete disfarçado, um código cultural para dizer: “A água é viva, e se não fores cuidadoso, ela cobra.”
Mas na pressa moderna de asfaltar tudo, canalizar rios e tapar lagoas, esquecemo-nos do aviso. Construímos prédios onde antes havia mangais, despejamos lixo nas correntes, cortamos árvores sem pensar no amanhã. E depois, quando vêm as cheias ou a seca, chamamos a isso “desastre natural”, como se fosse obra do acaso.
Se calhar, Nhamataca não desapareceu. Talvez tenha apenas trocado a canoa pela enxurrada, o sussurro noturno pelo rugido das águas. Talvez esteja a lembrar-nos que a natureza não é inimiga nem amiga, é justa.
Os mais novos já não conhecem o nome dele. Crescem com histórias importadas e filmes que não falam da nossa terra. Mas eu pergunto: quando deixamos de contar as nossas próprias lendas, quem nos avisa dos perigos que só nós conhecemos? Quem nos recorda que até os rios têm memória?
No fim, não sei se Nhamataca é real. Mas sei que, sempre que passo junto ao rio nos dias de chuva, há um silêncio que me faz abrandar o passo. E nesse silêncio, quase consigo ouvi-lo dizer: respeita-me, ou venho buscar-te.






