O Economista-Chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, traça um retrato exigente do arranque de 2026: crescimento insuficiente para responder à pressão demográfica, espaço fiscal praticamente esgotado, choques climáticos recorrentes e uma economia ainda distante de uma trajectória sustentável e inclusiva.
Crescimento Anémico Num País com Pressões Demográficas Elevadas
Moçambique inicia 2026 com uma economia que cresce, mas cresce pouco para as suas necessidades reais. A leitura de Fáusio Mussá é clara: taxas de crescimento na ordem de 1% a 3% não representam recuperação económica efectiva num país com forte crescimento populacional, elevado desemprego jovem e profundas carências sociais.
Na prática, este desempenho traduz-se numa estagnação do rendimento per capita, limitando a capacidade de redução da pobreza, de criação de emprego e de consolidação de uma base fiscal mais ampla. “Crescer pouco, neste contexto, é quase o mesmo que não crescer”, observa o economista, em entrevista exclusiva ao “Tema de Fundo”, do “Semanário Economico”, transmitida na última quinta-feira, na STV Noțícias, sublinhando que “a economia moçambicana continua presa a um ciclo de baixo crescimento e elevada vulnerabilidade”.
Para o quadro sénior do Standard Bank, este quadro é agravado pela fraca diversificação produtiva, pela dependência excessiva de factores exógenos e pela limitada capacidade de absorção de choques, tornando o crescimento altamente volátil e pouco inclusivo.
Espaço Fiscal Praticamente Esgotado
Um dos constrangimentos mais severos identificados para 2026 é a quase inexistência de espaço fiscal. A combinação entre elevado serviço da dívida, rigidez da despesa pública, fraca arrecadação fiscal e necessidades sociais crescentes deixa o Estado com margens mínimas de manobra.
Segundo Mussá, mesmo políticas orçamentais prudentes enfrentam limites concretos: “O Estado chega a 2026 com pouco espaço para fazer mais, mesmo quando sabe o que precisa de ser feito”. Esta limitação impede uma actuação contracíclica eficaz e reduz a capacidade de resposta a choques climáticos, sanitários ou económicos.
A pressão fiscal crescente sobre um sector privado frágil cria ainda riscos adicionais, podendo travar o investimento e aprofundar a informalidade, num ciclo que se autoalimenta.
Política Monetária Entre a Estabilidade e a Ineficácia Estrutural
Do lado monetário, o Banco de Moçambique tem procurado preservar a estabilidade macroeconómica através de uma postura cautelosa, recorrendo ao aperto monetário para conter pressões inflacionistas e ancorar expectativas.
Contudo, Fáusio Mussá alerta para os limites estruturais da política monetária num contexto em que a inflação resulta, em grande medida, de choques de oferta, factores climáticos, rupturas logísticas e pressões cambiais. “A política monetária não resolve cheias, não cria produção agrícola nem corrige falhas de infra-estruturas”, sublinha.
O custo do crédito elevado penaliza o investimento privado e agrava a fragilidade das empresas, sobretudo das pequenas e médias, reduzindo ainda mais a capacidade de resposta da economia real.
Choques Climáticos Deixam de Ser Excepcionais
A análise de 2026 incorpora um dado incontornável: os choques climáticos deixaram de ser eventos extraordinários para se tornarem parte integrante da conjuntura económica. Cheias, ciclones e secas provocam impactos recorrentes sobre a produção agrícola, as infra-estruturas, a logística e os preços.
Para Mussá, o custo económico dos eventos climáticos vai muito além da destruição imediata. Gera pressões orçamentais adicionais, compromete cadeias de abastecimento, alimenta a inflação e reduz a previsibilidade económica. Sem investimentos consistentes em resiliência climática, o país continuará a reagir em vez de prevenir, com custos cada vez mais elevados.
Uma Economia a Duas Velocidades
Outro traço marcante da conjuntura é a persistência de uma economia segmentada, em que o dinamismo dos grandes projectos extractivos contrasta com a fragilidade da economia doméstica. O crescimento, quando ocorre, permanece concentrado e com fracos efeitos de arrastamento.
Segundo Mussá, esta assimetria limita o impacto do crescimento sobre o emprego, o rendimento das famílias e a base fiscal, perpetuando um modelo económico pouco inclusivo. Sem ligações mais fortes entre os grandes investimentos e o tecido produtivo nacional, o crescimento continuará a ser estatisticamente positivo, mas socialmente insuficiente.
Incerteza em Torno do FMI e das Expectativas do Mercado
A indefinição sobre um eventual novo programa com o Fundo Monetário Internacional surge como mais um elemento de incerteza em 2026. Embora não seja uma solução em si mesma, a existência de um enquadramento com o FMI tende a reforçar a previsibilidade macroeconómica e a confiança dos investidores.
Para os mercados, a ausência de clareza aumenta a percepção de risco e condiciona decisões de investimento, sobretudo num contexto de fragilidade fiscal e cambial.
2026 Como Ano de Gestão de Risco, Não de Aceleração
Em jeito de balanço global Fáusio Mussá aponta para um ano de gestão de riscos, mais do que de aceleração económica. A recuperação permanece frágil, desigual e vulnerável, exigindo realismo nas expectativas e prudência nas decisões de política económica.
“Sem reformas estruturais profundas, investimento em resiliência climática e fortalecimento da base produtiva, 2026 tenderá a consolidar um ciclo de sobrevivência económica, adiando, uma vez mais, a transição para um crescimento robusto, inclusivo e sustentável”. Ajustou
Fonte: O Económico






