Resumo
Os Estados Unidos vão realizar um pagamento inicial nas próximas semanas para reduzir os mais de dois mil milhões de dólares em atraso devidos às Nações Unidas, com o embaixador Mike Waltz a anunciar esta medida devido à crise de liquidez da organização. O valor exato e a divisão entre dívidas passadas e atuais ainda estão por determinar. A crise financeira expõe a fragilidade do sistema multilateral, com os EUA a acumularem a maior parte das dívidas. Esta situação ocorre num contexto de menor envolvimento multilateral dos EUA durante a presidência de Donald Trump, que reduziu contribuições voluntárias e saiu de várias agências da ONU. A recente lei orçamental de Trump prevê fundos para pagar quotas da ONU, condicionados ao avanço de reformas institucionais.
Os Estados Unidos vão efectuar, nas próximas semanas, um pagamento inicial destinado a reduzir os montantes em atraso devidos às Nações Unidas, que ultrapassam os dois mil milhões de dólares apenas no orçamento regular da organização. O anúncio foi feito pelo embaixador norte-americano junto da ONU, Mike Waltz, num momento em que a instituição enfrenta uma grave crise de liquidez e alerta para o risco de colapso financeiro iminente.
Pagamento inicial em preparação
Em declarações à Reuters, Mike Waltz afirmou que Washington irá efectuar “muito em breve” uma primeira tranche de pagamento, descrevendo-a como um montante significativo, embora sem especificar o valor exacto nem a repartição entre dívidas passadas e obrigações correntes.
“Ver-se-á um pagamento inicial num prazo de semanas. Será um sinal importante relativamente às nossas quotas anuais”, afirmou o diplomata, sublinhando que a decisão final sobre o montante total ainda está a ser avaliada.
Segundo dados das Nações Unidas, mais de 95% dos montantes actualmente em dívida ao orçamento regular são imputáveis aos Estados Unidos, que acumulavam 2,19 mil milhões de dólares em atrasos no início de Fevereiro. A este valor acrescem 2,4 mil milhões de dólares relativos a missões de manutenção da paz e 43,6 milhões de dólares referentes a tribunais internacionais.
Crise financeira expõe fragilidades do sistema multilateral
O anúncio surge duas semanas depois de o secretário-geral da ONU, António Guterres, ter alertado para o risco de um “colapso financeiro iminente” da organização, resultante do não pagamento atempado das quotas obrigatórias por parte de vários Estados-membros, com particular incidência nos Estados Unidos.
Em Dezembro último, a Assembleia Geral aprovou um orçamento de 3,45 mil milhões de dólares para 2026, destinado a financiar o funcionamento das estruturas centrais da ONU, incluindo salários, operações administrativas, reuniões multilaterais e programas de desenvolvimento e direitos humanos.
Relação tensa com o multilateralismo
A crise financeira da ONU ocorre num contexto de retração do envolvimento multilateral dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, período durante o qual Washington reduziu de forma significativa os seus contributos voluntários e se retirou de várias agências das Nações Unidas, incluindo a Organização Mundial da Saúde.
Embora os atrasos nos pagamentos norte-americanos não sejam inéditos, a sua dimensão aumentou de forma acentuada nos últimos anos. Dados da ONU indicam que os Estados Unidos não efectuaram qualquer pagamento ao orçamento regular em 2025, acumulando 827 milhões de dólares desse exercício, além de 767 milhões de dólares correspondentes a 2026.
Reformas como condição política
Na terça-feira, Donald Trump promulgou uma lei orçamental que prevê 3,1 mil milhões de dólares para o pagamento de quotas da ONU e de outras organizações internacionais. Waltz sublinhou, contudo, que o apoio financeiro está associado ao avanço das reformas institucionais em curso.
O diplomata manifestou apoio à iniciativa UN80, lançada por António Guterres com vista à racionalização administrativa e ao reforço da eficiência da organização, mas considerou que as mudanças “não vão suficientemente longe”.
“É um primeiro passo importante, mas deveria ter sido iniciado mais cedo. O foco deve regressar às funções centrais da ONU: paz e segurança internacionais”, afirmou, acrescentando que Washington espera novas medidas de reforma nos próximos meses.
Sustentabilidade financeira em causa
O anúncio de um pagamento inicial representa um alívio de curto prazo para a tesouraria das Nações Unidas, mas não resolve os desafios estruturais de financiamento da organização. A dependência excessiva de um número reduzido de grandes contribuintes, aliada à politização crescente das quotas obrigatórias, continua a colocar em causa a previsibilidade orçamental e a capacidade operacional do sistema multilateral.
A evolução do dossiê norte-americano será, por isso, determinante não apenas para a estabilidade financeira da ONU, mas também para o futuro do multilateralismo num contexto global marcado por tensões geopolíticas e fragmentação institucional.
Fonte: O Económico






