Resumo
A redução do tempo das aulas no ensino secundário em Moçambique tem gerado debate sobre a qualidade do ensino e a eficácia das mudanças. Enquanto a medida parece ser apenas técnica, a preocupação reside na capacidade do sistema educativo em garantir aprendizagens sólidas. A discussão vai para além dos minutos retirados, questionando se menos tempo resultará em melhorias reais ou se será apenas uma alteração organizativa. A eficácia do ensino não depende apenas da duração das aulas, mas também da consistência curricular, apoio individual aos alunos e preparação dos professores. A redução do tempo pode exigir maior objetividade e planeamento, mas a chave pode residir na coerência das políticas educativas e no investimento em formação docente e avaliação de resultados.
A recente redução do tempo das aulas no ensino secundário em Moçambique reacendeu um debate que vai muito além da gestão de horários. À superfície, trata-se de um ajuste técnico, menos alguns minutos por aula, no entanto, quando se observa o histórico do desempenho escolar e as dificuldades persistentes no sistema educativo, nota-se que a situação é crítica.
Durante anos, o debate sobre a educação no país tem girado em torno da qualidade do ensino, do aproveitamento escolar, da preparação dos alunos e das condições de trabalho dos professores. Os desafios nunca estiveram apenas no número de minutos por aula, estiveram e continuam a estar na consolidação de aprendizagens, na consistência curricular, na estabilidade pedagógica e na capacidade de acompanhamento individual dos estudantes.
É precisamente por isso que a redução do tempo lectivo suscita dúvidas legítimas, se o modelo anterior já enfrentava dificuldades em garantir níveis satisfatórios de assimilação de conteúdos, será realista esperar que menos tempo produza melhores resultados? Ou a mudança será neutra, meramente organizativa, sem impacto profundo na aprendizagem?
É verdade que mais tempo não significa automaticamente melhor ensino, uma aula longa e desorganizada pode ser menos eficaz do que uma aula curta e bem estruturada. O problema, contudo, não se resume à eficiência individual de cada sessão, cada minuto retirado soma-se ao longo do ano e pode representar menos oportunidades para rever matérias, realizar exercícios práticos ou esclarecer dúvidas.
Num contexto em que muitos alunos dependem quase exclusivamente do ambiente escolar para aprender, a escola não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos, mas de consolidação. Reduzir o tempo pode exigir maior objetividade, melhor planificação e disciplina metodológica. A questão é saber se essas condições estão garantidas de forma uniforme em todo o sistema.
Quando se altera o tempo dedicado ao ensino, altera-se implicitamente a expectativa sobre o que deve ser alcançado. Ensinar o mesmo programa em menos minutos pressupõe maior intensidade. Mas intensidade não substitui maturação, certos conteúdos exigem tempo para serem compreendidos, discutidos e assimilados.
Talvez o verdadeiro desafio não esteja na quantidade de minutos, mas na coerência das políticas educativas. Reformas pontuais, quando não articuladas com investimento em formação de professores, acompanhamento pedagógico e avaliação rigorosa de resultados, tendem a produzir efeitos limitados. Ou esta a se reduzir o tempo porque acredita-se que ele era excessivo, ou porque o sistema precisa de se adaptar a constrangimentos que ainda não foram resolvidos?






