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A Nova Corrida Tecnológica Já Não é Pelos Chips — É Pela Electricidade

Resumo

A procura global de energia para Inteligência Artificial poderá mais do que duplicar até 2030, com os centros de dados a emergirem como novo epicentro da competição geoeconómica, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Estima-se que a procura de eletricidade por estes centros possa ultrapassar o consumo anual do Japão, atingindo 945 TWh até 2030 e 1.720 TWh até 2035, num cenário de adopção acelerada. Esta nova "Era da Electricidade" tornou-se crucial na geoeconomia digital, com os Estados Unidos a preverem que os centros de dados possam consumir 12% da eletricidade nacional até 2028. A competição estratégica entre Estados, como a China e os EUA, intensifica-se, com investimentos em infraestruturas energéticas a desempenharem um papel crucial na corrida pela supremacia em IA. Gigantes tecnológicas estão a investir em soluções próprias para garantir acesso a energia estável e abundante, incluindo energia renovável e reactores nucleares modulares.

Procura global de energia para IA poderá mais do que duplicar até 2030; centros de dados emergem como novo epicentro da competição geoeconómica.

A corrida global pela Inteligência Artificial entrou numa fase estruturalmente nova em 2026. O gargalo já não está apenas nos semicondutores ou nos modelos algorítmicos, mas no acesso a electricidade fiável, abundante e economicamente sustentável.

Segundo o relatório inaugural da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre “Energy and AI”, os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatts-hora (TWh) de electricidade em 2024, o equivalente a 1,5% do consumo global . Até 2030, essa procura poderá mais do que duplicar para 945 TWh, ultrapassando o consumo anual do Japão.

Num cenário de adopção acelerada e ganhos de eficiência insuficientes, a procura poderá atingir 1.720 TWh até 2035. A chamada “Era da Electricidade” está, assim, no centro da nova geoeconomia digital.

O novo ponto de estrangulamento

Durante a última década, o debate concentrou-se na escassez de chips e na capacidade de produção de semicondutores. Em 2026, o constrangimento desloca-se para a infraestrutura energética.

Nos Estados Unidos, projecções indicam que os centros de dados poderão consumir cerca de 12% de toda a electricidade nacional até 2028, podendo ultrapassar o consumo agregado da indústria pesada.

A IEA identifica esta procura como um dos desafios mais complexos e urgentes da era digital. O crescimento é impulsionado por treinos de modelos de IA cada vez mais intensivos, computação em nuvem, streaming de vídeo e utilização massiva de servidores equipados com chips aceleradores, quatro vezes mais potentes do que os tradicionais e proporcionalmente mais exigentes em energia.

O acesso à electricidade tornou-se o novo factor limitador da expansão tecnológica.

Competição estratégica entre Estados

A disputa energética assume igualmente contornos geopolíticos. A China tem vindo a electrificar a sua economia a um ritmo mais acelerado do que os seus pares, investindo significativamente em novas centrais eléctricas e redes de transmissão.

O reforço da capacidade de geração e de infraestrutura poderá conferir-lhe vantagem competitiva estrutural na corrida pela supremacia em IA, num momento em que a dependência de energia abundante e estável se torna decisiva.

Nos Estados Unidos, a discussão sobre política energética ganha dimensão estratégica. A Goldman Sachs estima que os centros de dados representem até 40% da nova procura de electricidade até 2030, podendo manter a inflação dos preços energéticos em torno de 6%, com impacto directo sobre política monetária e debates eleitorais.

Soluções emergenciais e novas apostas tecnológicas

Perante o risco de estrangulamento energético, gigantes tecnológicas começam a investir directamente em infraestruturas próprias, incluindo acordos de fornecimento de energia renovável, exploração de pequenos reactores nucleares modulares e parcerias para desenvolvimento geotérmico avançado.

A IEA defende que a solução não reside apenas na expansão da oferta, mas também na optimização da procura. Estratégias como localização de centros de dados próximos de fontes renováveis, maior flexibilidade operacional e utilização da própria IA para gestão inteligente da carga eléctrica podem mitigar impactos.

Paradoxalmente, a mesma tecnologia que aumenta a procura energética pode também melhorar a eficiência do sistema eléctrico, optimizando redes, prevendo produção renovável e reduzindo tempos de falha.

Planeamento, política e mercado financeiro

O documento Navigating Change, Managing Growth destaca que o sector energético global atravessa momento de transformação profunda, marcado por alterações em incentivos fiscais, reconfiguração geopolítica e crescente volatilidade dos mercados financeiros .

O crescimento explosivo da procura associada à IA surge num contexto já pressionado por transição energética, descarbonização e necessidade de reforço de geração de base (baseload).

A convergência entre tecnologia digital e energia eléctrica transforma infraestruturas de rede, financiamento e política pública em factores centrais da competitividade internacional.

Implicações estruturais

A corrida pela IA já não é apenas tecnológica — é energética, industrial e financeira. Países com redes robustas, diversificação de fontes e capacidade de investimento em geração e transmissão terão vantagem estratégica.

Fonte: O Económico

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