Inquéritos privados mostram regresso da produção ao crescimento na zona euro e aceleração do PMI norte-americano para máximos de 12 meses, enquanto Japão, Coreia do Sul e China exibem sinais de recuperação apoiados na procura externa.
A actividade industrial global recuperou em Janeiro, com melhoria visível nas principais economias avançadas e um reforço do dinamismo nas potências exportadoras asiáticas, segundo inquéritos privados divulgados esta semana, num sinal de que o impacto das tarifas mais elevadas dos Estados Unidos poderá estar a perder intensidade no curto prazo.
Do “quase” crescimento na zona euro ao regresso claro dos EUA à expansão
Na zona euro, o índice PMI da indústria transformadora (HCOB), compilado pela S&P Global, subiu para 49,5 pontos em Janeiro, face aos 48,8 de Dezembro, aproximando-se do limiar de 50 pontos que separa contracção de expansão. Mais relevante do que o nível agregado foi a inversão do sinal na produção: após a contracção do mês anterior, a indústria voltou a registar crescimento da produção, sugerindo que a fase mais aguda do enfraquecimento poderá estar a dar lugar a uma estabilização gradual.
Nos Estados Unidos, a leitura foi mais contundente. O PMI manufactureiro do Institute for Supply Management (ISM) recuperou para 52,6 pontos, depois de 47,9 em Dezembro, regressando a território expansionista pela primeira vez em 12 meses. Este salto reforça a narrativa de reequilíbrio do sector industrial norte-americano, num contexto em que a procura e as encomendas parecem estar a reencontrar tração após um período prolongado de fraqueza.
Ásia volta a puxar pelo ciclo industrial — e as exportações fazem o “trabalho pesado”
O maior contributo para o optimismo veio da Ásia exportadora. Japão e Coreia do Sul, ambos altamente expostos à procura externa, registaram acelerações para ritmos de vários anos, sinalizando que as cadeias industriais ligadas ao comércio internacional beneficiam de um ambiente mais favorável no início de 2026. No Japão, o PMI da S&P Global atingiu o nível mais alto desde Agosto de 2022, com as empresas a reportarem o aumento mais forte da produção e das novas encomendas em quase quatro anos, apoiado por procura robusta de mercados como os Estados Unidos e Taiwan.
A leitura é consistente com a avaliação de analistas que observam uma melhoria recente do ciclo exportador. A ideia central é simples: com as exportações a acelerarem em múltiplas geografias, o curto prazo pode permanecer relativamente favorável para os sectores manufactureiros orientados para o exterior, sobretudo na Ásia.
China melhora no PMI privado — mas o contraste com o dado oficial merece leitura cautelosa
Na China, o indicador privado também apontou expansão. O PMI manufactureiro “China General Manufacturing”, compilado pela S&P Global, subiu para 50,3 pontos, face aos 50,1 de Dezembro, o nível mais alto desde Outubro, sugerindo que as encomendas externas voltaram a ganhar fôlego. O sinal é particularmente relevante por contrastar com leituras oficiais anteriores que haviam indicado enfraquecimento da actividade, sublinhando que o retrato do sector pode variar consoante o universo empresarial captado pelos inquéritos e o momento de recolha dos dados.
Tarifas, risco comercial e o teste decisivo: a sustentabilidade da procura
O conjunto de indicadores sugere que o choque de curto prazo associado às tarifas poderá ter “amolecido”, mas não elimina o risco de novas fricções comerciais ou de uma desaceleração da procura global. O ponto crítico é a sustentabilidade: se o actual impulso estiver excessivamente dependente das exportações e de encomendas concentradas em poucos mercados, qualquer reviravolta em política comercial, custos logísticos ou confiança empresarial pode reintroduzir volatilidade na trajectória da indústria.
Ainda assim, o arranque de 2026 traz um sinal claro: a indústria mundial entrou no ano com um tom menos defensivo do que no final de 2025, combinando estabilização na Europa, regresso à expansão nos EUA e aceleração do ciclo exportador na Ásia — uma combinação que, a manter-se, pode reequilibrar as expectativas para a actividade industrial nos próximos trimestres.
Fonte: O Económico






