Resumo
A queda do Bitcoin para níveis anteriores à eleição de Donald Trump expõe a fragilidade da liquidez no mercado cripto, levantando dúvidas sobre o seu desempenho em 2026. A redução da profundidade de mercado do Bitcoin, devido à contracção da liquidez, tem levado a oscilações mais abruptas nos preços. A nomeação de Kevin Warsh para a Reserva Federal desencadeou vendas em ativos digitais, sugerindo uma possível redução do balanço da Fed e diminuindo o apelo do Bitcoin. Eventos anteriores, como o flash crash de Outubro, continuam a influenciar o mercado, com sinais de estabilização à medida que grandes detentores de Bitcoin reduzem as vendas.
O Bitcoin eliminou totalmente os ganhos acumulados desde a eleição do Presidente norte-americano Donald Trump, num movimento que expõe a fragilidade da actual estrutura de liquidez do mercado cripto e reacende dúvidas sobre a trajectória do activo em 2026. A queda ocorre num contexto de elevada volatilidade financeira global, marcada por incerteza quanto à política monetária da Reserva Federal e por uma reavaliação dos activos de risco.
Liquidez em retração e oscilações mais violentas
Segundo analistas citados pela Reuters, a contracção da liquidez no mercado do Bitcoin tem sido um fenómeno persistente nos últimos meses, criando condições para movimentos de preço mais abruptos e erráticos. Thomas Probst, analista da Kaiko, sublinha que a profundidade média de mercado do Bitcoin — medida pela capacidade de absorver ordens sem impacto significativo nos preços — caiu de mais de 8 milhões de dólares em 2025 para cerca de 5 milhões actualmente, depois do choque registado em Outubro.
Esta redução significa que volumes relativamente modestos de negociação estão agora a provocar variações de preço mais expressivas, um sinal de vulnerabilidade estrutural num mercado que, até recentemente, beneficiava de liquidez abundante e forte alavancagem.
Fed, política e o fim do “efeito Trump”
A correcção do Bitcoin coincidiu com uma vaga mais ampla de vendas em activos digitais e metais preciosos, desencadeada a 30 de Janeiro, após Donald Trump ter indicado Kevin Warsh como próximo presidente da Reserva Federal. O mercado interpretou a nomeação como um sinal potencial de redução do balanço da Fed, diminuindo a atracção de activos alternativos como o Bitcoin.
Embora a administração Trump tenha adoptado uma postura favorável às criptomoedas, impulsionando o Bitcoin para um máximo histórico acima dos 125 mil dólares em Outubro, essa orientação política não foi suficiente para travar a actual correcção. O activo chegou a cair abaixo dos 61 mil dólares, o nível mais baixo desde o período anterior à eleição presidencial.
Memória recente de choques e desalavancagem
O actual episódio ocorre num mercado ainda marcado pelo impacto de eventos anteriores. Em Outubro, o anúncio de novas tarifas sobre importações chinesas desencadeou o maior evento de liquidação da história do mercado cripto, eliminando volumes significativos de liquidez que, segundo analistas, ainda não foram plenamente repostos.
Para Denny Galindo, estratega da Morgan Stanley Wealth Management, esse “flash crash” funcionou como o ponto de ruptura de uma bolha de alavancagem excessiva, cujos efeitos continuam a repercutir-se no comportamento dos investidores.
Há sinais de fundo?
Apesar do ambiente adverso, algumas leituras sugerem que o mercado poderá estar a aproximar-se de um ponto de estabilização. James Butterfill, responsável de research da CoinShares, refere que a desaceleração das vendas por grandes detentores de Bitcoin — os chamados whales — pode indicar que a pressão vendedora está a perder intensidade. Neste contexto, parte dos investidores começa a encarar a correcção como uma oportunidade táctica de entrada.
Ainda assim, outras casas de análise mantêm uma postura cautelosa. Para Andrew Moss, da Jefferies, os indicadores disponíveis continuam a apontar para um mercado exposto a nova volatilidade no curto prazo, num ambiente em que a liquidez permanece escassa e a visibilidade sobre a política monetária é limitada.
Entre activo alternativo e risco sistémico
A trajectória recente do Bitcoin reforça o debate sobre o seu papel no portefólio dos investidores: se, por um lado, continua a ser promovido como reserva de valor alternativa, por outro, o seu comportamento recente aproxima-o cada vez mais de um activo de risco sensível a choques de liquidez, decisões de política monetária e mudanças abruptas no sentimento do mercado.
Num ano em que a normalização monetária global permanece incerta, a evolução da liquidez poderá revelar-se tão decisiva para o Bitcoin quanto as narrativas políticas que, até há pouco tempo, sustentavam a sua valorização.
Fonte: O Económico





