Por: Virgilio Timana
A Casa de Moçambique apresentou, na manhã desta sexta-feira, 10 de abril, um novo programa de bolsas de formação técnica destinado a jovens moçambicanos, numa cerimónia realizada no Hotel Terminus, em Maputo. A iniciativa resulta de uma parceria estratégica com Escolas Técnicas Profissionais de Portugal, nomeadamente do Alentejo, Penacova e Torres Vedras, e pretende responder às necessidades de qualificação em áreas-chave para o desenvolvimento económico e tecnológico do país.
Dirigido a estudantes que tenham concluído a 9.ª, 10.ª ou 12.ª classes, o programa abrange áreas como informática de gestão e desenvolvimento de software, saúde, hotelaria e turismo. Para além disso, estão previstas novas valências, incluindo pecuária, ambiente e audiovisual.

A sessão ficou marcada por intervenções que sublinharam não apenas a dimensão técnica do projecto, mas também o seu impacto humano. O director da Escola de Penacova, engenheiro Pedro José da Silva Dias, destacou a experiência acumulada da instituição e o entusiasmo com a adesão moçambicana: “A nossa escola já existe há 36 anos em Portugal. Temos uma experiência muito grande com estudantes internacionais e decidimos tentar Moçambique”.
Alem disso, o responsável explicou que o programa está dividido em duas vertentes: cursos de três anos para jovens até aos 19 anos e formações de curta duração para maiores de 20 anos, com forte componente prática. Sublinhou ainda a importância do compromisso dos candidatos: “Vocês não estão a comprar o curso. Estão a frequentar uma formação que exige dedicação. Se não tiverem compromisso e vontade de estudar, não se inscrevam.”
Do lado da Casa de Moçambique, o presidente, doutor Inácio João, reforçou o carácter social da iniciativa e a visão de transformação através da educação: “Estamos a transformar vidas, e a transformação de vidas é um acto divino. […] Não vale a pena todos sermos doutores. O país precisa de valências técnicas, de gente que saiba fazer.”
Adicionalmente, o dirigente revelou que o modelo adoptado assenta em bolsas partilhadas, com custos divididos entre os beneficiários e a organização, rejeitando a ideia de gratuitidade total: “Aqui não há nada de ‘mahala’. Por haver tudo de graça é que o país não cresce. É uma responsabilidade partilhada.”
Actualmente, o programa conta com cerca de 30 bolsas activas, podendo atingir as 50 num futuro próximo. Segundo os parceiros, há já sinais concretos de impacto: em edições anteriores, cerca de 80% dos formandos conseguiram inserção no mercado de trabalho, sobretudo nas áreas de hotelaria e saúde.
Importa destacar que, a componente prática é um dos pilares da formação, com cerca de 800 horas de estágio, muitas vezes conduzindo a oportunidades de emprego ainda antes da conclusão dos cursos. Em alguns casos, os estudantes poderão também beneficiar de programas europeus.
Durante o evento, foram igualmente partilhados testemunhos inspiradores, como o do cantor moçambicano Edu, que regressará a Portugal, desta vez como estudante: “Vou fazer um curso de turismo. Para mim é uma grande alegria, para a minha família e para todos os jovens que sonham como eu.”
Apesar das oportunidades, os responsáveis foram firmes quanto às exigências do programa. Casos de indisciplina ou falta de aproveitamento têm levado à exclusão de alunos, independentemente da sua origem social: “Aqui não há privilégios. Quem não tiver compromisso não tem lugar. Dinheiro nenhum me corrompe”, afirmou o doutor Inácio João.
Por fim, a iniciativa pretende não só formar profissionais para responder às necessidades do mercado português, onde há carência de mão-de-obra em sectores como o turismo, mas também incentivar o regresso de quadros qualificados a Moçambique.
“Queremos que alguns fiquem a trabalhar em Portugal, mas também que outros regressem para fazer crescer o nosso país”, concluiu.
Com inscrições abertas através da Casa de Moçambique, o programa afirma-se como uma ponte de conhecimento entre os dois países, apostando no capital humano como motor de desenvolvimento sustentável.






