Receitas actuais permanecem modestas e analistas alertam que os fluxos estruturais do gás natural só deverão ganhar escala depois de 2035, num contexto marcado por riscos institucionais, pressões políticas e desafios de transparência.
Capitalização Cresce, Mas Impacto Económico Permanece Limitado
O Fundo Soberano de Moçambique iniciou o ano de 2026 com uma nova injecção financeira, elevando a sua capitalização total para cerca de 116 milhões de dólares. Apesar do reforço, analistas consideram que o impacto económico do instrumento continuará limitado durante a próxima década, contrastando com as expectativas políticas criadas em torno da chamada “era do gás”.
Segundo uma análise do Centro de Integridade Pública (CIP), os valores actualmente acumulados são ainda reduzidos face ao potencial do sector de gás natural, sendo que os fluxos verdadeiramente estruturais só deverão materializar-se depois de 2035, com um pico projectado por volta de 2040.
Expectativas Políticas Versus Ritmo Real das Receitas do Gás
Para o CIP, existe um desfasamento claro entre o calendário político e o calendário económico do Fundo Soberano. As receitas actuais resultam sobretudo do projecto Coral Sul FLNG, que gera cerca de 75 milhões de dólares por ano, dos quais aproximadamente 40% são canalizados para o Fundo, o equivalente a cerca de 28 milhões de dólares anuais.
“O tempo do Fundo não é o tempo da política”, alerta Rui Mate, investigador do CIP, sublinhando que as receitas actualmente disponíveis não correspondem às expectativas públicas frequentemente associadas ao início da exploração do gás natural.
Risco Central é Institucional, Não Financeiro
A análise identifica como principal fragilidade do Fundo Soberano o risco institucional e político, e não a sustentabilidade financeira. Existe receio de que, em contextos de stress fiscal ou ciclos eleitorais, o Fundo possa ser pressionado a financiar despesas correntes do Estado, desviando-se do seu objectivo estratégico e intergeracional.
Segundo o CIP, a utilização do Fundo como instrumento de curto prazo comprometeria a sua credibilidade e esvaziaria a lógica de poupança e estabilização que preside à sua criação.
Banco Central Chamado a Reforçar Transparência e Comunicação
Enquanto entidade gestora, o Banco de Moçambique desempenha um papel central no funcionamento do Fundo Soberano, após a assinatura do contrato de gestão no final de 2025. Contudo, o CIP aponta fragilidades ao nível da prestação de contas, da regularidade da informação pública e da clareza na comunicação.
Para os analistas, a credibilidade do Fundo dependerá não apenas do volume de recursos acumulados, mas sobretudo da qualidade institucional, da transparência na gestão e da capacidade de proteger o instrumento de pressões políticas enquanto as grandes receitas do gás permanecem ainda no horizonte.
Fonte: O Económico






