Resumo
Moçambique e África do Sul mantêm uma relação económica interdependente, com cooperação em vários setores, como comércio, energia e mobilidade laboral. No entanto, esta cooperação tem perpetuado uma estrutura económica frágil em Moçambique, tornando-o dependente da África do Sul e impedindo o desenvolvimento industrial do país. Moçambique importa alimentos, combustíveis e bens industriais sul-africanos, exportando recursos naturais e energia em troca. A África do Sul beneficia de energia barata de Moçambique, enquanto Moçambique enfrenta baixos níveis de eletrificação. A mobilidade laboral também beneficia a economia sul-africana, sem políticas eficazes para transformar esta mão-de-obra em desenvolvimento económico sustentável em Moçambique. Esta relação desigual reflete-se no comércio externo e na falta de oportunidades de desenvolvimento interno em Moçambique.
Moçambique e África do Sul são países vizinhos que compartilham fronteiras longas e estratégicas, além de corredores de transporte que ligam o interior de Moçambique aos portos utilizados pela África do Sul. Esta proximidade tem impulsionado uma interdependência económica que remonta à luta pela independência moçambicana e ao período pós-apartheid.
Ao longo das últimas décadas, a cooperação abrange múltiplos sectores, incluindo comércio, energia, transportes, telecomunicações, turismo e mobilidade laboral. Porém, este padrão de trocas em vez de criar bases para uma economia competitiva e diversificada em Moçambique, perpetua uma estrutura económica frágil, impedindo o desenvolvimento industrial moçambicano, transformando o país num mercado cativo para bens produzidos na África do Sul.
Consequentemente, Moçambique continua a desempenhar o papel de parceiro subordinado, oferecendo recursos, mercado e geografia, enquanto África do Sul captura a maior parte do valor económico gerado pela cooperação.
Esta desigualdade nota-se no comércio externo, onde Moçambique depende fortemente de alimentos, combustíveis a maquinaria e bens industriais sul-africanos, mas, em contrapartida, exporta recursos naturais e energia.
No sector energético, a África do Sul beneficia há décadas de energia proveniente de Moçambique a preços historicamente baixos, enquanto isso, Moçambique continua a enfrentar um dos mais baixos níveis de electrificação da região.
O mesmo padrão se observa na mobilidade laboral, onde milhares de moçambicanos trabalham nas minas e indústrias sul-africanas em condições que beneficiam largamente a economia da África do Sul e as remessas enviadas para muitas famílias em Moçambique, não compensam a falta de políticas que transformem esta mão-de-obra migrante em desenvolvimento económico a longo prazo, seja por meio de formação técnica, transferência de competências ou criação de oportunidades internas no próprio país.
No sector de transportes e logística, nos corredores de desenvolvimento (Maputo ou Limpopo) a economia sul-africana colhe os maiores benefícios, enquanto a industrialização ao longo dos corredores continua praticamente inexistente do lado moçambicano.
A situação repete-se no investimento estrangeiro directo (banca, retalho, mineração e telecomunicações em Moçambique) grande parte dos lucros gerados por estas operações é repatriada.
Por isso, a cooperação não pode continuar a ser uma relação em que um país absorve desproporcionalmente os ganhos enquanto outro permanece numa posição de dependência estrutural. A hora impõe que Moçambique abandone o papel de parceiro júnior, redefina prioridades e defenda com firmeza os seus interesses económicos, transformando a integração regional em oportunidade real, ao invés de discurso político.






