Unidade inaugurada em Nipepe assinala uma viragem estratégica na política mineira, reforça o valor acrescentado das exportações e posiciona Moçambique como actor relevante na cadeia global de baterias e energia limpa.
Um Marco na Estratégia de Valorização Local dos Recursos
Moçambique deu um passo decisivo na sua trajectória de industrialização ao inaugurar uma nova fábrica de processamento de grafite no distrito de Nipepe, província do Niassa, um investimento que eleva o país na cadeia global de valor dos minerais críticos. A unidade foi inaugurada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, e representa uma mudança estrutural na forma como o país pretende explorar e rentabilizar os seus recursos minerais.
Financiada pela empresa chinesa DH Mining, a fábrica simboliza a aposta na transformação local de matérias-primas, reduzindo a dependência da exportação de minério bruto e criando condições para maior retenção de valor económico em território nacional.

Capacidade Industrial Relevante à Escala Africana
A nova unidade industrial representa um investimento estimado em cerca de 200 milhões de dólares e possui capacidade para processar aproximadamente 200 mil toneladas de grafite por ano, posicionando-se entre as maiores operações de processamento do continente africano.
De acordo com informações oficiais, a fábrica contará numa fase inicial com cerca de 890 trabalhadores directos, número que poderá atingir 2.000 postos de trabalho numa segunda fase de expansão. Para uma província historicamente marcada por limitações de investimento industrial, este impacto no emprego é considerado estruturalmente relevante.

Niassa Como Novo Pólo de Valor Mineiro
A área de Muichi, em Nipepe, alberga reservas confirmadas de grafite estimadas em 5,4 milhões de toneladas, inseridas num potencial geológico provincial que poderá ultrapassar 50 milhões de toneladas de recursos identificados. Antes deste projecto, Moçambique já figurava entre os maiores produtores mundiais de grafite bruto, com destaque para operações em Cabo Delgado, como a mina de Balama.
Com a nova fábrica, o Niassa passa a integrar o mapa dos territórios que não apenas extraem, mas processam minerais estratégicos, diversificando a base produtiva provincial e atraindo serviços de apoio, logística e fornecimento industrial.
Grafite e a Corrida Global pela Energia Limpa
O grafite é hoje considerado um mineral crítico no contexto da transição energética global, sendo essencial para a produção de ânodos utilizados em baterias de iões de lítio — componentes centrais em veículos eléctricos, sistemas de armazenamento de energia e dispositivos electrónicos.
Estudos de mercado indicam que o mercado global de grafite ultrapassou os 30 mil milhões de dólares em 2022, com projecções de crescimento sustentado até 2032, impulsionadas pela electrificação dos transportes e pela expansão das energias renováveis.
A capacidade de processamento instalada em Nipepe coloca Moçambique numa posição mais competitiva para abastecer mercados exigentes da Ásia, Europa e América do Norte, onde a procura por grafite processado continua a aumentar.
Mais Receita, Mais Emprego, Mais Cadeia de Valor
Analistas económicos sublinham que o processamento local do grafite permite capturar mais receita dentro do país, em comparação com a exportação de minério em estado bruto. Este modelo tende a gerar maior rendimento fiscal, melhorar a balança comercial e estimular encadeamentos produtivos a montante e a jusante.
Embora ainda não existam dados oficiais sobre as receitas de exportação da unidade, estimativas do sector apontam para a possibilidade de geração de centenas de milhões de dólares em divisas por ano, dependendo dos preços internacionais e da quota de mercado conquistada.
Industrialização, Mas com Desafios por Resolver
Na cerimónia de inauguração, o Chefe de Estado sublinhou que o processamento local de minerais estratégicos reforça a competitividade do país nas cadeias globais de valor, promove o desenvolvimento regional integrado e contribui para a independência económica nacional.
Contudo, especialistas alertam que o sucesso desta nova fase da indústria mineira dependerá da capacidade de assegurar sustentabilidade ambiental, capacitação de mão-de-obra nacional e integração efectiva das comunidades locais nas cadeias de valor.
A fábrica de grafite em Niassa representa, assim, um avanço relevante, mas também um teste à capacidade do país de transformar investimentos industriais em crescimento económico inclusivo e resiliente.
Fonte: O Económico






