Resumo
O ouro ultrapassou os US$ 5.000 por onça, recuperando após uma queda e reafirmando-se como ativo de refúgio em tempos de incerteza económica e geopolítica. A Reserva Federal dos EUA adotou uma postura cautelosa em relação aos cortes das taxas de juro, o que pode limitar os ganhos do ouro a curto prazo. O dólar, apesar de ganhos recentes, enfrenta pressões estruturais, o que favorece o ouro como investimento alternativo. As tensões geopolíticas no Médio Oriente e a incerteza internacional também impulsionam a procura pelo metal. Este ciclo destaca-se pela influência crescente de investidores institucionais e ETFs no mercado do ouro.
Questões-Chave:
O ouro voltou a superar a fasquia psicológica dos US$ 5.000 por onça, recuperando terreno após uma correcção acentuada no início do mês e reafirmando o seu estatuto de activo de refúgio num contexto de incerteza económica e geopolítica persistente.
Segundo dados avançados pela Bloomberg , o metal precioso chegou a negociar nos US$ 5.017,88 em Singapura, numa sessão marcada por liquidez reduzida devido ao feriado do Ano Novo Lunar em vários mercados asiáticos. A recuperação sucede a uma queda histórica que afastou o ouro do seu máximo absoluto acima de US$ 5.595, evidenciando a elevada volatilidade recente.
Fed, Casa Branca e a Batalha dos Juros
As minutas da reunião de Janeiro da Reserva Federal indicaram uma postura inesperadamente prudente relativamente a cortes adicionais das taxas de juro. Essa cautela poderá colocar a Fed em tensão com o Presidente Donald Trump, que tem defendido custos de financiamento mais baixos para estimular o crescimento.
Para o ouro, a equação é clara: taxas de juro mais baixas reduzem o custo de oportunidade de deter um activo não remunerado. Contudo, uma Fed menos inclinada a cortar juros pode limitar ganhos de curto prazo — embora as preocupações com a independência do banco central estejam a reforçar o apelo do metal como instrumento de preservação de valor.
Dólar Sob Pressão Estrutural
O Bloomberg Dollar Spot Index registou recentemente ganhos pontuais, reflectindo dados robustos da economia norte-americana, incluindo o maior crescimento da produção industrial em quase um ano. Ainda assim, o pano de fundo estrutural permanece desafiante: em 2025, o dólar sofreu a maior queda anual desde 2017, depreciando cerca de 9,5% face a um cabaz de moedas.
A correlação inversa entre dólar e ouro mantém-se relevante. Um dólar estruturalmente mais fraco tende a impulsionar o metal, tornando-o mais atractivo para investidores fora dos Estados Unidos e reforçando a narrativa de diversificação face a activos denominados em moeda norte-americana.
Geopolítica Amplifica Procura de Refúgio
As tensões no Médio Oriente continuam no radar dos investidores, com negociações nucleares entre Washington e Teerão sem avanços concretos. Paralelamente, episódios recentes envolvendo declarações expansionistas de Washington e intervenções externas têm contribuído para um ambiente de elevada imprevisibilidade internacional.
Historicamente, períodos de fricção geopolítica sustentada reforçam o papel do ouro como reserva alternativa, particularmente quando combinados com incerteza fiscal e níveis elevados de dívida soberana.
Novo Ciclo Estrutural? ETFs e Bancos Centrais no Centro da Dinâmica
A actual escalada distingue-se de ciclos anteriores pelo peso crescente de investidores institucionais e veículos financeiros estruturados. Dados do World Gold Council indicam que os activos sob gestão em ETFs lastreados em ouro duplicaram em 2025, atingindo um máximo histórico de US$ 559 mil milhões.
Analistas do Deutsche Bank AG sublinham que o mercado enfrenta actualmente duas forças compradoras agressivas: bancos centrais e investidores em ETFs. Este duplo impulso cria uma base estrutural mais robusta do que em rallies meramente especulativos.
Instituições como BNP Paribas SA e Goldman Sachs Group Inc. projectam a continuação da tendência ascendente, sustentada por diversificação estratégica de reservas e procura defensiva.
Até Onde Pode Ir o Ouro?
O relatório Gold Outlook 2026 do World Gold Council sugere que o cenário base permanece favorável, sobretudo se o crescimento económico global abrandar e os juros recuarem. Um cenário de recessão mais severa, combinado com escalada geopolítica, poderá impulsionar ganhos adicionais.
Por outro lado, uma recuperação económica robusta nos Estados Unidos, associada a um dólar mais forte e juros elevados, poderia limitar o ímpeto do metal.
Para já, o regresso aos US$ 5.000 consolida uma narrativa que vai além da mera especulação: trata-se de um reposicionamento estratégico global face a um sistema monetário e geopolítico em mutação.
Fonte: O Económico





