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Wednesday, February 4, 2026
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Redes Sociais e a Sociedade do Espetáculo Descrição

Por: Euclides Cumbe

O aumento do uso das novas tecnologias de informação e comunicação, principalmente das
redes sociais nos últimos anos, alterou de forma quase que irreversível, as relacções sociais,
os hábitos cotidianos e os costumes das pessoas, especialmente nas grandes metrópoles.

A internet rompeu fronteiras e democratizou o acesso à informação e a cultura, entretanto,
tem demonstrado ser prejudicial em alguns aspectos e como consequências de seu mau uso,
podemos citar: a cultura do ódio e cancelamento, a popularização das fake news, uma maior
fragilidade nas relações sociais e a espetacularização da vida. Vamos nos ater a estas duas
últimas. Neste sentido, as redes sociais têm contribuído para diversas mudanças na sociedade
contemporânea, estando cada vez mais presentes em nosso dia a dia que não nos damos conta
do quanto as utilizamos e somos dependentes delas.

De acordo com uma pesquisa da Microsoft, 72% da população utiliza as redes sociais como
primeira fonte de informação. Logo, com tanta gente navegando e consumindo informação
nas redes sociais, estas tornaram-se palco para a espetacularização da vida privada com sua
supervalorização sob a forma de imagens. Actualmente, com o crescente uso das redes
sociais, os palcos se multiplicaram, servindo para todo e qualquer tipo de espetáculo, e de
meros espectadores e consumidores de informação passamos a ser também produtores de
conteúdo.

No livro “A sociedade do espetáculo” de 1967, o filósofo francês Guy Debord faz uma
análise, que numa mudança de contexto continua ainda super actual, sobre o poder que as
imagens exerciam numa sociedade de cultura de massa. Para Debord, a questão é a relacção
social entre pessoas mediada por imagens. É o que percebemos no Instagram e facebook,
uma das redes sociais mais utilizadas pelos moçambicanos, exibir-se, postar fotos,
compartilhar e curtir passaram a fazer parte da nossa rotina virtual. Nas sociedades modernas
tudo é representação e isso se relacciona directamente com a decomposição da vida cotidiana.

De acordo com uma pesquisa do Tsandzana (2018), dentre os países da CPLP, Moçambique
em termos de acesso a internet situa-se em apenas 18% do total da população de 30 milhões

de habitantes e a maior parte dos cidadãos com acesso a internet, usam as redes sociais como
sua principal fonte de informação, sendo o Whatsapp a mídia mais utilizada e seguida do do
Facebook. As imagens que as pessoas tentam passar de si mesmas nas redes sociais
ultrapassam a realidade e as tornam, uma representação fictícia num mundo paralelo, no qual
o chamado “espetáculo” contribui para a criação de uma realidade ficcional colectiva nos dias
atuais.

Além disso, estabeleceu-se uma nova relacção social/digital nas redes na qual surgem os
chamados “digital influencers”, que conforme um estudo da Qualibest já são a segunda
maior fonte de informação para a tomada de decisão dos consumidores. Na sociedade do
espetáculo necessidades são fabricadas, o marketing sabe muito bem disso, e assimiladas por
milhões de “seguidores”, gerando novas tendências de consumo e de conduta, que interferem
na maneira como vestir-se, desejar e comportar-se, consolidando a imagem como a
informação representativa do capital de mercado.

Neste sentido, a produção e veiculação de imagens nas redes sociais funcionam como um
mecanismo de poder e de dominação social, para gerar engajamento, visto que numa
sociedade capitalista é impossível separar as relacções sociais das de produção e consumo, na
qual somos todos commodities, já dizia o filósofo Karl Marx sobre o fetiche de mercadorias.

A mercadoria e a aparência tornaram-se mais valorizadas no contexto das relacções sociais,
nos quais o ter e o aparentar ser sobrepõem o viver, artificializando as relacções e as
experiências humanas. Em vista disso, num mundo cada vez mais globalizado, no qual a
concorrência dos mercados, o aumento da competitividade e a velocidade na transferência de
informações, o sociólogo Zygmunt Bauman o classificou como modernidade líquida, que diz
respeito sobre as relacções sociais, econômicas, de produção e consumo cada vez mais
frágeis, voláteis, fluidas, gerando uma sociedade temporal e instável, carente de aspectos
sólidos.

Dispersa e superficial. Estes são os adjectivos que melhor denotam a sociedade pós-moderna,
que apesar de termos acesso e muito mais informação ao nosso dispor, estamos cada vez mais
incipientes no que diz respeito ao conhecimento. O mundo está passando por um
empobrecimento cultural. Estamos presenciando a prevalência da ignorância, do

desconhecimento, da superficialidade. As pessoas lêem cada vez menos, e quando lêem,
optam pela leitura fácil, pelo texto curto e que não exige muito da compreensão.

Considerando-se tudo isto, as redes sociais nos últimos anos tornaram-se fundamentais para a
vida moderna, evoluíram e revolucionaram a forma como as pessoas se comunicam, se
informam e consomem. Entretanto, é preciso estarmos atentos ao modo como as utilizamos,
pois não adianta fugir, se isolar e dizer que não faz parte, a tecnologia e as novas formas de
comunicação de hoje estão vinculadas a tantas outras, que vão desde serviços básicos,
educação, entretenimento, comércio, entre outros, que fica difícil não participarmos delas.

Assim sendo, as redes sociais estão nos condicionando à brevidade, a alienação e têm
refletido comportamentos da vida real e ditado novos comportamentos. Esta é apenas a ponta
do iceberg, há muito o que reflectir sobre os factores que desencadearam esse novo e estranho
jeito de se viver.

As pessoas sempre buscaram nos meios de comunicação de massa formas de fugirem de sua
própria condição humana e o uso excessivo das redes sociais, principalmente para ostentação
da vida privada e de objectos de consumo simboliza bem esta fuga da realidade. Faz-se
necessário, portanto, repensar os limites da auto exposição e o papel que as redes sociais
ocupa em nossas vidas, pois estão inseridas cada vez mais em nosso dia a dia, seja para fins
recreativos, aquisição de conhecimentos, comunicação ou consumo de notícias.

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