InícioNacionalCrónicaSaúde pública não se negocia (mas quase sempre se tenta)

Saúde pública não se negocia (mas quase sempre se tenta)

Por: Alfredo Júnior

Em Moçambique, a saúde pública é uma coisa muito respeitada. Tão respeitada que só entra em cena quando já não há muito a fazer, quando os hospitais estão cheios, os pulmões cansados e o orçamento a pedir misericórdia. Ainda assim, há sempre espaço para uma negociação discreta. Não para salvar vidas, claro, mas para “equilibrar interesses”.

O tabaco, esse velho conhecido, nunca foi apenas um cigarro. É emprego, é imposto, é “liberdade individual”, é hábito social e, em último caso, é problema do fumador. Pelo menos até o fumador começar a tossir no transporte público, no gabinete, na fila do banco ou no hospital público. A partir daí, o problema passa a ser de todos, mas já tarde.

Agora o Governo decide avançar com uma nova lei para controlo do tabaco. Excelente notícia. Finalmente. Com atraso, mas chega. O curioso é que, sempre que se fala em limitar o consumo, surge um coro bem ensaiado: e a economia? e os empregos? e os produtores? Como se o pulmão tivesse voto no Conselho de Ministros e tivesse chumbado a proposta várias vezes antes.

A saúde pública, em teoria, não se negocia. Na prática, entra na sala de reuniões como convidada sem direito à palavra. Fala-se de percentagens, de impacto fiscal, de adaptação gradual. O cancro, esse, não se adapta. Não negocia prazos, nem aceita fases piloto.

Há quem trate o tabaco como se fosse uma tradição cultural intocável, quase património imaterial. Fuma-se porque sempre se fumou. E morre-se porque, aparentemente, isso também sempre aconteceu. A novidade é fingir surpresa quando os números aparecem.

A nova lei é necessária. Mas não é heroica. É apenas o mínimo. Heroico seria ter feito isto antes, sem tantas contas, sem tanto receio de melindrar interesses que respiram melhor do que a maioria da população.

No fim, a pergunta mantém-se simples: quando a saúde entra em negociação, quem perde? Nunca é o tabaco. Nunca é o imposto. Nunca é o discurso elegante. Normalmente, é alguém que já não consegue respirar para reclamar.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Moçambique Valida Relatórios Locais Dos ODS E Reforça Arquitectura Nacional De...

0
Seis territórios em Moçambique participaram em Revisões Locais Voluntárias para a Segunda Revisão Nacional Voluntária de 2026, visando a governação multinível...
- Advertisment -spot_img