Resumo
O relatório da UNCTAD destaca que o crescimento do setor terciário nos países menos desenvolvidos está a concentrar-se em atividades informais e de baixo valor acrescentado, sem ganhos significativos de produtividade ou rendimento. Entre 2025 e 2050, será necessário criar 13,2 milhões de empregos por ano nestes países, mas a qualidade dos empregos gerados continua a ser um problema, com muitos a serem informais e de baixa produtividade. A produtividade laboral nestes países é 11 vezes inferior à das economias desenvolvidas, o que limita o desenvolvimento e a integração dos serviços nas cadeias de valor globais. Apesar do turismo representar uma parte significativa das exportações de serviços, as limitações infraestruturais e a dependência de importações reduzem o seu impacto na economia. A participação dos países menos desenvolvidos nos serviços digitais globais é mínima devido a constrangimentos de conectividade e competências tecnológicas.
O sector dos serviços está a expandir-se rapidamente nas economias menos desenvolvidas, tornando-se uma fonte central de crescimento e absorção de mão-de-obra. Contudo, esta expansão não tem sido acompanhada por ganhos substanciais de produtividade, rendimento ou transformação estrutural. É esta a principal conclusão do Least Developed Countries Report 2025, divulgado pela UN Trade and Development (UNCTAD), que sublinha que o crescimento liderado por serviços, sem políticas direccionadas, pode perpetuar vulnerabilidades em vez de promover prosperidade sustentável.
Emprego em escala: o desafio demográfico estrutural
Entre 2025 e 2050, os países menos desenvolvidos terão de criar cerca de 13,2 milhões de empregos por ano para absorver novos entrantes no mercado de trabalho. Embora os serviços tenham desempenhado um papel relevante na absorção desta força laboral crescente, a qualidade dos empregos continua problemática.
Grande parte do emprego concentra-se no comércio informal, serviços pessoais e actividades de subsistência, com fraca produtividade e rendimentos reduzidos. O relatório destaca que “ter emprego” não equivale necessariamente a sair da pobreza, mantendo-se elevada a incidência de pobreza laboral.
Produtividade: o verdadeiro bloqueio estrutural
A produtividade laboral média nos países menos desenvolvidos é cerca de 11 vezes inferior à das economias desenvolvidas medianas. Esta diferença condiciona o tipo de serviços que podem ser desenvolvidos, exportados e integrados em cadeias de valor globais.
Sem integração com a indústria, inovação tecnológica e infra-estruturas adequadas, o crescimento do sector terciário tende a manter-se numa lógica de sobrevivência, em vez de se tornar catalisador de transformação estrutural.
Turismo cresce, mas impacto é limitado
O turismo representa cerca de um terço das exportações de serviços destes países, constituindo a principal categoria de exportação terciária. Contudo, o relatório alerta que receitas elevadas nem sempre se traduzem em criação de emprego significativo, valor acrescentado local ou dinamização industrial.
Limitações infra-estruturais, elevada dependência de importações e fracas ligações às cadeias produtivas domésticas reduzem o efeito multiplicador do turismo sobre a economia nacional.
Serviços digitais: potencial elevado, participação residual
Os serviços digitalmente transaccionáveis estão entre os segmentos mais dinâmicos do comércio global. No entanto, os países menos desenvolvidos representam apenas 0,16% das exportações globais neste domínio — o nível mais baixo desde o início dos registos estatísticos.
Persistem constrangimentos estruturais em termos de conectividade, competências digitais e capacidade tecnológica. A disparidade é também social e territorial: mulheres têm 42% menos probabilidade de utilizar internet móvel do que homens, e populações rurais apresentam uma probabilidade 50% inferior face às áreas urbanas.
Políticas direccionadas e realismo estratégico
A UNCTAD sublinha que estratégias baseadas na criação de “hubs” logísticos, tecnológicos ou turísticos podem reforçar competitividade e receitas fiscais, mas frequentemente geram menos empregos do que o esperado e podem aumentar riscos associados a endividamento e sobrecapacidade.
O relatório defende que o desenvolvimento de serviços exige políticas integradas, dados estatísticos mais robustos e uma articulação estreita com estratégias industriais e energéticas. Sem esta coerência, o crescimento pode aprofundar desigualdades existentes.
Sem atalhos para o desenvolvimento
A conclusão central é clara: os serviços não constituem um atalho automático para o desenvolvimento. Podem apoiar a industrialização e a competitividade apenas quando elevam produtividade, fortalecem ligações com sectores produtivos e são sustentados por investimentos em educação, infra-estruturas digitais e energia fiável.
Para países africanos e economias como a moçambicana, a mensagem é particularmente relevante: a expansão do sector terciário deve ser acompanhada de políticas activas de qualificação, digitalização e integração produtiva, sob pena de o crescimento económico não se traduzir em desenvolvimento inclusivo.
Fonte: O Económico






