A inflação em moeda local cai para 4,1% em Janeiro, impulsionada pela estabilidade do ZiG e pela coordenação fiscal e monetária, mas desafios estruturais persistem.
O Zimbabué alcançou, em Janeiro, um marco raro na sua trajectória económica recente: a inflação anual em moeda local caiu para 4,1%, entrando em terreno de um dígito pela primeira vez em quase três décadas. O resultado é visto pelas autoridades como um sinal de estabilização macroeconómica, num país marcado por longos períodos de elevada inflação e volatilidade cambial.
De acordo com dados oficiais, a desaceleração da inflação foi observada tanto na moeda local, o Zimbabwe Gold (ZiG), como na inflação medida em dólares norte-americanos, que recuou para cerca de 1%. Para o Governo, este duplo movimento reforça a narrativa de maior previsibilidade de preços e de recuperação gradual da confiança na política económica.
O ministro das Finanças, Desenvolvimento Económico e Promoção do Investimento, Mthuli Ncube, classificou o resultado como um “marco histórico”, atribuindo-o à combinação de políticas fiscais prudentes e de uma política monetária mais restritiva desde a introdução do ZiG em 2024. Segundo o Executivo, a moeda encontra-se integralmente respaldada por reservas em ouro e divisas, com os activos de cobertura a terem aumentado de cerca de 276 milhões de dólares para mais de 1,2 mil milhões de dólares até ao final de 2025.
Do ponto de vista das autoridades monetárias, a estabilidade do ZiG reflecte-se igualmente na redução do prémio cambial, que caiu de níveis superiores a 140% antes da introdução da nova moeda para cerca de 20%. Para o Reserve Bank of Zimbabwe, este ajustamento é crucial para limitar comportamentos especulativos e ancorar expectativas inflacionistas.
Economistas sublinham, contudo, que a leitura positiva deve ser feita com cautela. Embora a inflação baixa seja um pré-requisito para o crescimento sustentável, o Zimbabué continua a enfrentar constrangimentos estruturais relevantes, incluindo elevados níveis de endividamento, limitações no acesso a financiamento externo e uma economia ainda fortemente dolarizada. A capacidade de manter a inflação em níveis reduzidos dependerá, em grande medida, da continuidade da disciplina fiscal, da credibilidade da política monetária e da confiança dos agentes económicos.
Para o sector empresarial, a descida da inflação pode criar um ambiente mais favorável ao planeamento de médio e longo prazo, reduzindo incertezas nos custos e nos preços. Para os consumidores, o impacto poderá traduzir-se numa maior estabilidade do poder de compra, embora os efeitos sejam graduais após anos de erosão real dos rendimentos.
No contexto regional, o desempenho recente do Zimbabué aproxima o país dos critérios de convergência macroeconómica da SADC, nomeadamente no que diz respeito à inflação e ao défice orçamental. Ainda assim, o verdadeiro teste será a capacidade de transformar a estabilidade nominal em crescimento económico inclusivo, investimento produtivo e melhoria efectiva das condições de vida.
Fonte: O Económico




