A suspensão das actividades da CityLink, determinada após o trágico acidente que ceifou sete vidas na Manhiça, reacendeu um debate que não pode ser empurrado para debaixo do tapete: como garantir segurança rodoviária sem recorrer a medidas que, embora bem-intencionadas, podem gerar mais problemas do que resolvem?
É facto que o condutor do autocarro, agora detido, agiu com imprudência grave. Uma ultrapassagem temerária, realizada sem condições de segurança, mudou para sempre a vida de famílias inteiras. A responsabilização individual é, portanto, inquestionável. Porém, transformar o erro de um motorista na condenação de toda uma transportadora suscita dúvidas legítimas, sobretudo quando se trata de uma das empresas com o melhor registo operacional no país.
Numa quadra festiva, em que milhares de cidadãos dependem de ligações interprovinciais, suspender por completo uma operadora de grande cobertura pode agravar a já frágil oferta de transporte público. A intenção de proteger vidas é nobre, mas a eficácia da decisão merece reflexão cuidadosa.
Um ponto incontornável está relacionado às infra-estruturas. Lombas, iluminação, separadores, sinalização clara não são luxos; são ferramentas básicas de prevenção. Sabemos que o país vive constrangimentos financeiros, mas também sabemos que a ausência de pequenas medidas custa, todos os anos, mais vidas do que conseguimos admitir. Investir minimamente já faria diferença.
A educação rodoviária continua a ser tratada como uma formalidade. Motoristas de longo curso, que conduzem dezenas de vidas diariamente, precisam de formação contínua e de avaliação séria. E todos nós, enquanto utilizadores da via, precisamos de recuperar a noção de que a pressa, muitas vezes, é o primeiro passo rumo à tragédia.
A suspensão da CityLink poderá ter sido uma reacção compreensível, mas dificilmente será uma solução sustentável. O problema não está apenas nas empresas, nos condutores ou nas estradas. Está num sistema inteiro que precisa de coerência e firmeza. Responsabilizar o culpado é justo. Prevenir o próximo acidente é urgente. E isso exige mais do que medidas punitivas: exige compromisso, fiscalização efectiva e respeito absoluto pela vida humana.






