Alívio nos dados de inflação dos EUA desencadeia short squeeze de quase 700 milhões de dólares, enquanto ETFs spot reforçam a procura estrutural por Bitcoin e alteram o equilíbrio do mercado.
O mercado global de criptoactivos iniciou 2026 com um movimento de forte valorização, liderado pelo Bitcoin, que ultrapassou a fasquia dos 95 mil dólares, impulsionado por um alívio nas leituras da inflação norte-americana e por um violento ajustamento de posições especulativas. O rally foi acompanhado por liquidações superiores a 680 milhões de dólares em apenas 24 horas, evidenciando a elevada sensibilidade do mercado digital às expectativas de política monetária e ao sentimento de risco global.
O gatilho: inflação, Fed e liquidações em cadeia
O movimento foi desencadeado pela divulgação dos dados mais recentes do índice de preços no consumidor (CPI) dos Estados Unidos, que indicaram um abrandamento das pressões inflacionistas. Esta leitura reduziu os receios de uma postura monetária ainda mais restritiva por parte da Reserva Federal dos Estados Unidos, levando a um alívio generalizado do sentimento de risco nos mercados globais.
No universo cripto, o impacto foi amplificado pela elevada alavancagem acumulada. Dados de mercado mostram que cerca de 684 milhões de dólares em posições foram liquidadas em 24 horas, maioritariamente posições curtas, num clássico fenómeno de short squeeze que acelerou a subida dos preços.
Bitcoin e ETFs: uma nova dinâmica estrutural
Para além do movimento táctico, o rally expôs mudanças estruturais mais profundas no mercado do Bitcoin. Desde o lançamento dos ETFs spot em 2024, o perfil da procura alterou-se significativamente, com a entrada de investidores institucionais e de longo prazo.
O CEO da Bitwise, Matt Hougan, argumenta que estes veículos estão a absorver mais de 100% da nova emissão de Bitcoin, criando uma pressão estrutural sobre a oferta disponível. A analogia traçada com o ouro — que valorizou de forma consistente após a entrada massiva de bancos centrais — reforça a narrativa de que o Bitcoin poderá assumir um papel crescente como activo de reserva alternativa, caso os fluxos para ETFs se mantenham robustos.
Ethereum e altcoins: ganhos por arrastamento
O movimento não se limitou ao Bitcoin. O Ethereum valorizou cerca de 7%, também impulsionado por liquidações significativas de posições curtas. Altcoins como Solana, XRP, Dogecoin, Cardano e BNB registaram subidas expressivas, embora os dados sugiram que os ganhos resultaram sobretudo de cobertura forçada de posições e não de um novo ciclo de entrada de capital especulativo.
Este padrão indica um mercado ainda frágil, altamente dependente de factores macroeconómicos e da direcção do apetite global pelo risco.
Criptoactivos entre activo de risco e reserva alternativa
O rally reacende um debate central para 2026: os criptoactivos estão a evoluir para uma nova classe de activos de refúgio ou continuam reféns da dinâmica de risco global? A reacção positiva à moderação da inflação sugere que, no curto prazo, o Bitcoin continua sensível às expectativas de juros reais e à política monetária norte-americana.
Contudo, a crescente institucionalização do mercado — via ETFs, custódia regulada e maior participação de investidores de longo prazo — aponta para uma trajectória potencialmente mais próxima da do ouro, especialmente num contexto de erosão da confiança nas instituições monetárias tradicionais.
A subida do Bitcoin acima dos 95 mil dólares no início de 2026 não representa apenas mais um episódio de volatilidade extrema. Ela reflecte a convergência entre macroeconomia, política monetária e transformação estrutural do sistema financeiro global. Se este movimento marcará o início de um novo ciclo sustentado ou apenas mais um rally táctico dependerá, em grande medida, da evolução da inflação, da credibilidade da política monetária e da persistência dos fluxos institucionais para os criptoactivos.
Fonte: O Económico






