Por: Gentil Abel
A cada época chuvosa, o país volta a enfrentar o mesmo cenário: estradas destruídas, circulação rodoviária condicionada e milhares de cidadãos retidos por dias. Assim sendo, o problema deixou há muito de ser excecional para se tornar estrutural. Basta a queda de chuvas mais intensas para que importantes vias de acesso colapsem, revelando uma fragilidade crónica da rede rodoviária nacional e levantando sérias dúvidas sobre a qualidade das obras realizadas.
Neste contexto, os números são expressivos e dificilmente podem ser atribuídos apenas a fenómenos naturais. Em 2022, cerca de seis mil e trezentos quilómetros de estradas foram destruídos pelos ciclones e chuvas que assolaram o país, incluindo troços estratégicos da Estrada Nacional Número Um (EN1). No ano seguinte, as chuvas voltaram a causar estragos significativos, degradando aproximadamente 750 quilómetros de estradas. Em muitos casos, a circulação ficou limitada ou totalmente interrompida, afectando a economia, o transporte de bens essenciais e a vida quotidiana das populações.
Desta feita, a situação actual confirma que pouco mudou. Desde domingo (11), o tráfego rodoviário entre o Sul, Centro e Norte do país esteve interrompido devido à inundação de parte da EN1, no troço entre o rio Save e Muxungue, sobretudo nas zonas dos rios Muar e Ripembe. Até às 18 horas desse dia, dezenas de automobilistas e passageiros permaneceram retidos nos dois sentidos, sem alternativas viáveis de circulação. Trata-se de um eixo vital do país que, mais uma vez, sucumbe à força da água.
No entanto, o argumento de que as chuvas são intensas perde força quando os danos se repetem ano após ano e atingem extensões de 600 a 750 quilómetros. A época chuvosa e ciclónica é um fenómeno previsível, recorrente e conhecido. Estradas que desabam sempre que chove não são vítimas do clima, mas de falhas graves na construção das estradas. A incapacidade de garantir vias resilientes expõe não apenas deficiências técnicas, mas também uma gestão ineficaz de recursos públicos.
Por fim, à medida que o país entra no último trimestre da época chuvosa, cresce o risco de novos colapsos rodoviários, sobretudo em zonas ribeirinhas. A persistência deste problema sugere uma normalização do inaceitável: estradas que não duram, obras que não resistem e cidadãos que pagam o preço. A crítica impõe-se não por militância, mas pelos factos, que mostram que o país continua a investir em infraestruturas que falham exactamente quando mais são necessárias.






