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Chuvas Persistentes e Descargas a Montante Colocam o Sul do País Sob Elevado Risco de Cheias

Pressão simultânea das chuvas intensas e dos escoamentos transfronteiriços agrava cenário hidrológico no Sul, com cheias de nível dois já em curso e risco real de evolução para níveis comparáveis ao ano 2000.

O Sul de Moçambique atravessa um dos momentos hidrológicos mais delicados da presente época chuvosa, num contexto em que a conjugação entre chuvas persistentes no território nacional e descargas significativas a montante, provenientes de países vizinhos, está a pressionar de forma crescente os principais sistemas fluviais. As autoridades alertam que o actual cenário de cheias, classificado como de nível dois, poderá rapidamente agravar-se para nível três, caso se mantenha o padrão de precipitação intensa previsto para os próximos dias.

De acordo com informações prestadas por Agostinho Vilanculos, chefe do Departamento de Gestão de Recursos Hídricos, pelo menos dez bacias hidrográficas em todo o país encontram-se sob alerta máximo, com particular incidência nas regiões Sul e Centro. Os rios Maputo, Umbelúzi, Incomáti, Limpopo, Inhanombe, Búzi, Púnguè, Chiri, Zambeze e Rovuma continuam a receber volumes elevados de água, tanto da precipitação directa como dos escoamentos transfronteiriços.

A pressão a montante e o papel crítico da barragem de Massingir

O epicentro da preocupação situa-se na bacia do Limpopo, onde os escoamentos a montante atingiram níveis considerados elevados para esta fase da época chuvosa. A barragem de Liteba, na África do Sul, encontra-se a descarregar cerca de três mil metros cúbicos por segundo, enquanto a barragem de Engellard liberta aproximadamente quatro mil metros cúbicos por segundo no mesmo sistema fluvial. Estes volumes convergem para a barragem de Massingir, em território moçambicano, elevando significativamente a pressão sobre esta infra-estrutura estratégica.

Para criar capacidade de encaixe e garantir a segurança estrutural, Massingir encontra-se igualmente a efectuar descargas controladas da ordem dos quatro mil metros cúbicos por segundo. Em simultâneo, a albufeira recebe cerca de dois mil metros cúbicos por segundo provenientes do rio Zingwendzi, também com origem na África do Sul. O resultado foi uma subida abrupta da cota da barragem, de 117 para 124 metros, num período inferior a 24 horas, o que corresponde a um acréscimo aproximado de 600 milhões de metros cúbicos de água armazenada.

Segundo Vilanculos, esta dinâmica cria condições para cheias com impactos significativos nas zonas ribeirinhas e baixas, sobretudo nos distritos de Chókwè, Guijá, Xai-Xai, Limpopo e Chibuto, onde cerca de cinco mil pessoas poderão ser directamente afectadas nos próximos dias, caso o volume de água continue a aumentar.

Impacto humano e deslocações preventivas em larga escala

Os efeitos do actual cenário já se fazem sentir no terreno. Desde o início da presente época chuvosa, pelo menos doze mil agregados familiares foram forçados a abandonar zonas de risco e a deslocar-se para áreas consideradas seguras, numa acção preventiva coordenada pelas autoridades locais e centrais. Em várias localidades da província de Gaza, a subida das águas provocou inundações de campos agrícolas, destruição de habitações precárias e isolamento temporário de comunidades.

A situação não se limita à bacia do Limpopo. Em Maputo, Matola, Boane e Marracuene, as chuvas intensas aumentaram o risco de cheias urbanas, pressionando sistemas de drenagem já fragilizados e elevando a probabilidade de inundações rápidas, sobretudo em bairros de ocupação informal.

Infra-estruturas sob pressão e riscos económicos

Para além do impacto social, o cenário hidrológico coloca desafios relevantes ao nível das infra-estruturas rodoviárias e logísticas. Em alguns pontos críticos, como no atravessamento do rio Muari, registaram-se interrupções temporárias da circulação, com impactos directos na mobilidade de pessoas e bens. A degradação ou interrupção prolongada de vias estratégicas poderá afectar o abastecimento de mercados locais, o escoamento da produção agrícola e o funcionamento normal das economias distritais.

O sector agrícola surge entre os mais vulneráveis. As cheias ameaçam culturas de subsistência e áreas de produção comercial, num momento em que muitas famílias rurais dependem directamente da campanha agrícola em curso para garantir rendimentos e segurança alimentar.

Previsões meteorológicas reforçam cenário de risco

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, o quadro meteorológico mantém-se desfavorável no curto prazo. Para o Sul do país, prevê-se a continuação de chuvas fortes a muito fortes, com acumulados superiores a 50 milímetros em 24 horas, podendo localmente ultrapassar os 100 milímetros, acompanhadas de trovoadas. Este padrão aumenta significativamente a probabilidade de transbordo dos principais rios e de cheias rápidas em zonas urbanas.

Para as regiões Centro e Norte, registou-se um ligeiro abrandamento da precipitação, mas as previsões apontam para a continuidade de chuvas fracas a moderadas, por vezes acompanhadas de trovoadas, em províncias como Zambézia, Niassa e Nampula, o que mantém a necessidade de vigilância hidrológica.

Um cenário que exige vigilância permanente

As autoridades sublinham que o actual quadro exige monitoria contínua e coordenação estreita entre os serviços de gestão de recursos hídricos, protecção civil e meteorologia, bem como a cooperação transfronteiriça com os países a montante. A experiência histórica, em particular a das cheias de 2000, demonstra que a rapidez de evolução destes fenómenos pode surpreender comunidades e instituições, caso as medidas preventivas não sejam rigorosamente cumpridas.

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p style="margin-top: 0in;text-align: justify;background-image: initial;background-position: initial;background-size: initial;background-repeat: initial;background-attachment: initial">Num contexto de elevada vulnerabilidade climática, o agravamento do risco de cheias no Sul do país volta a expor fragilidades estruturais na gestão do território, no ordenamento urbano e na resiliência das infra-estruturas, reforçando a urgência de soluções de médio e longo prazo que reduzam o impacto humano, social e económico de eventos hidrológicos extremos cada vez mais frequentes.

Fonte: O Económico

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