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Thursday, January 15, 2026
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ÉPOCA CHUVOSA COLOCA O PAÍS NOVAMENTE SOB INSPEÇÃO

Por: Gentil Abel

Todos os anos, sem exceção, o país assiste ao mesmo filme: chove, os bairros alagam, as casas enchem de água, a vida das pessoas fica suspensa e, no fim, repete-se o discurso da “chuva excessiva” como se fosse um fenómeno inesperado. Janeiro voltou a expor, de forma crua, fragilidades antigas que continuam a carecer de soluções imediatas, com destaque para a ausência ou ineficiência de valas de drenagem e sistemas de saneamento adequados. A evolução da tempestade “Dzuzai” para ciclone tropical intenso apenas acelerou um problema que já estava à vista, e que há anos espera por respostas políticas concretas.

Na cidade da Matola, os números falam por si: mais de 6.200 casas alagadas até meados de janeiro. Em Matlemele, a situação atingiu níveis dramáticos, com famílias a acamparem na estrada por não terem como permanecer nas suas próprias casas. No bairro COB, a falta de condições de higiene e de assistência obrigou o encaminhamento de famílias para centros de acolhimento, enquanto noutras zonas os alagamentos foram tão graves que levaram ao encerramento de centros de saúde. As inundações invadiram residências, tornaram ruas intransitáveis e castigaram sobretudo os bairros periféricos, onde o saneamento deficiente amplificou as perdas de mobiliário e alimentos. Em Boane, o transbordo do rio Umbelúzi e as descargas controladas da barragem dos Pequenos Libombos condicionaram severamente a circulação. Já na região Centro, imagens de satélite apontaram cerca de 317 km² de terrenos inundados, sem esquecer situações igualmente preocupantes em distritos como Mapaia, em Cabo Delgado.

Diante deste cenário, é impossível ignorar a dimensão política do problema. Não se trata apenas de fenómenos naturais, mas de decisões ou da falta delas. A chuva, afinal, é o melhor inspetor do Estado: ela vem, inspeciona e revela, sem rodeios, onde faltam valas de drenagem, onde o ordenamento urbano falhou, onde obras ficaram no papel e onde a manutenção foi negligenciada. Cada rua alagada e cada casa inundada são relatórios vivos de uma governação que insiste em agir de forma reactiva, em vez de preventiva.

As autoridades, como o INGD e o INAM, mantêm o país em alerta devido à previsão de mais chuvas intensas e ao risco de cheias que podem afectar até 500 mil pessoas no sul. O alerta é necessário, mas insuficiente. O que a população espera é um verdadeiro puxão de orelha aos governantes, para que deixem de tratar estas tragédias como fatalidades anuais e passem a investir, com seriedade em infraestruturas de drenagem, saneamento e planeamento urbano. Enquanto isso não acontecer, a cada época chuvosa a história repetir-se-á, e a chuva continuará a cumprir o seu papel de inspetora implacável.

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