UNCTAD alerta para desaceleração do crescimento, aumento de tarifas e reconfiguração das cadeias globais de valor, com riscos concentrados nas economias em desenvolvimento
O comércio internacional entra em 2026 num ambiente marcado por crescimento económico moderado, incerteza política crescente e fragmentação geopolítica, factores que estão a redesenhar os fluxos comerciais, as decisões de investimento e as cadeias globais de valor. Segundo a UNCTAD, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial deverá situar-se em torno de 2,6%, reflectindo a perda de dinamismo nas principais economias avançadas e emergentes.
Este abrandamento global surge num contexto em que Estados Unidos, União Europeia e China mostram sinais de desaceleração, enfraquecendo a procura externa e apertando as condições financeiras internacionais, com efeitos particularmente adversos para as economias em desenvolvimento.
Tarifas em Alta e Regresso do Proteccionismo
Um dos principais factores de pressão identificados pela UNCTAD é o aumento das tarifas globais em 2025, impulsionado sobretudo por medidas adoptadas pelos Estados Unidos. O impacto foi mais pronunciado no sector manufactureiro, onde as tarifas médias aplicadas subiram de 5,7% para 6,7%, agravando custos de produção e perturbando cadeias de fornecimento.
A organização alerta que o recurso crescente a tarifas como instrumento de política industrial e estratégica deverá persistir em 2026, aumentando a incerteza regulatória e penalizando economias pequenas e menos diversificadas, mais expostas à volatilidade do comércio internacional.
Cadeias Globais de Valor em Reconfiguração
Cerca de dois terços do comércio mundial ocorre no âmbito de cadeias globais de valor, actualmente em processo acelerado de reconfiguração. Empresas multinacionais estão a diversificar fornecedores e a aproximar a produção dos mercados finais, numa tentativa de reduzir riscos associados a tensões geopolíticas e rupturas logísticas.
Segundo a UNCTAD, países com infra-estruturas robustas, mão-de-obra qualificada e políticas estáveis encontram-se melhor posicionados para captar investimento. Em contrapartida, economias periféricas correm o risco de perder relevância se não melhorarem o ambiente de negócios e a competitividade logística.
Serviços Ganham Peso no Comércio Global
O relatório destaca igualmente a crescente “servicificação” do comércio mundial. Em 2025, as exportações globais de serviços cresceram cerca de 9%, superando largamente o crescimento do comércio de bens. Os serviços representam actualmente 27% do comércio global, com destaque para os serviços digitalmente transaccionáveis.
Apesar deste dinamismo, a UNCTAD sublinha que os países menos desenvolvidos continuam a beneficiar pouco desta tendência, devido a lacunas digitais, défice de competências e limitações no acesso a infra-estruturas tecnológicas.
Comércio Sul–Sul Ganha Relevância Estratégica
Outro elemento estrutural identificado é o fortalecimento do comércio Sul–Sul. Em 2025, as exportações entre países em desenvolvimento atingiram cerca de 6,8 biliões de dólares, representando 57% das exportações totais dessas economias.
A UNCTAD considera que o aprofundamento do comércio regional e inter-regional pode funcionar como amortecedor face à procura mais fraca nas economias avançadas, aumentando a resiliência das economias emergentes, incluindo as africanas.
Riscos e Oportunidades para Economias em Desenvolvimento
Para as economias em desenvolvimento, o cenário traçado pela UNCTAD é ambivalente. Por um lado, o crescimento fraco, o proteccionismo e a fragmentação aumentam os riscos de exclusão dos fluxos globais de comércio e investimento. Por outro, a reorganização das cadeias de valor, a expansão do comércio de serviços e o dinamismo do comércio Sul–Sul criam oportunidades estratégicas, desde que acompanhadas por políticas adequadas.
A organização sublinha que as escolhas de política comercial em 2026 serão determinantes para saber se o comércio global evoluirá para maior fragmentação ou para um modelo mais resiliente, inclusivo e orientado para o desenvolvimento.
Fonte: O Económico






