Entendimento cria um espaço económico com mais de 700 milhões de consumidores e redefine fluxos de comércio, investimento e cadeias de valor
A assinatura do acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul representa um dos acontecimentos económicos mais relevantes da última década no sistema de comércio internacional. Para além do simbolismo político, o entendimento cria um espaço económico de dimensão continental, com implicações directas sobre fluxos comerciais, investimento directo estrangeiro e reorganização das cadeias globais de valor, num momento de crescente fragmentação da economia mundial.
A dimensão económica do acordo
Em termos estritamente económicos, o acordo UE–Mercosul estabelece uma zona de comércio que agrega mais de 720 milhões de consumidores, combinando um Produto Interno Bruto conjunto estimado em cerca de 18 a 19 biliões de dólares, o que corresponde a aproximadamente 20% do PIB mundial. Trata-se, assim, do maior acordo comercial alguma vez concluído pela União Europeia, superando em escala os entendimentos firmados com o Canadá, Japão ou Coreia do Sul.
Actualmente, o comércio bilateral entre os dois blocos ronda 110 a 120 mil milhões de euros por ano, segundo dados da Comissão Europeia, valor que Bruxelas espera ver crescer de forma significativa à medida que tarifas e barreiras não tarifárias forem sendo eliminadas. O acordo prevê a eliminação progressiva de direitos aduaneiros sobre mais de 90% das trocas comerciais, criando ganhos estimados em vários milhares de milhões de euros para exportadores de ambos os lados.
Impactos sectoriais: indústria europeia e agricultura sul-americana
Do lado europeu, os maiores benefícios económicos concentram-se na indústria transformadora e nos serviços. Sectores como automóvel, maquinaria, produtos químicos, farmacêuticos e equipamentos industriais enfrentavam, até agora, tarifas que em alguns mercados do Mercosul ultrapassavam 30%, particularmente no sector automóvel. A redução dessas barreiras deverá reforçar a competitividade das empresas europeias e estimular novos investimentos produtivos na América do Sul.
Para o Mercosul, o principal ganho económico reside no acesso preferencial ao vasto mercado europeu para produtos agrícolas e agro-industriais. Carnes bovina e de aves, açúcar, etanol, soja e outros produtos agrícolas passam a beneficiar de quotas e tarifas reduzidas, potenciando receitas de exportação para economias fortemente dependentes do sector primário. Este ponto explica tanto o entusiasmo dos governos sul-americanos como a resistência política de agricultores europeus.
Efeito sobre investimento e cadeias de valor
Para além do comércio, o acordo tem potencial para reconfigurar fluxos de investimento directo estrangeiro. A União Europeia já é o maior investidor externo no Mercosul, com um stock de investimento superior a 300 mil milhões de euros, valor que poderá aumentar à medida que o enquadramento jurídico se torne mais previsível e integrado.
Num contexto global marcado pelo friend-shoring e pela procura de cadeias de abastecimento mais resilientes, o acordo pode estimular a relocalização de actividades industriais, logísticas e energéticas, aproximando mercados produtores de matérias-primas dos centros de consumo e transformação.
Custos de ajustamento e assimetrias
Apesar do potencial agregado, o impacto económico do acordo será assimétrico. Algumas economias e sectores enfrentarão custos de ajustamento relevantes, sobretudo na agricultura europeia e em segmentos industriais menos competitivos do Mercosul. O acordo não elimina, por si só, fragilidades estruturais como baixa produtividade, défice de infra-estruturas ou dependência excessiva de exportações primárias.
Neste sentido, o sucesso económico do entendimento dependerá da capacidade dos Estados em implementar políticas complementares de modernização produtiva, inovação e qualificação da mão-de-obra.
Um sinal económico num mundo em fragmentação
A dimensão económica do acordo ganha ainda maior relevo quando enquadrada no actual contexto global. Num momento em que os Estados Unidos e a China recorrem cada vez mais a tarifas, subsídios e políticas industriais defensivas, a UE opta por expandir o seu espaço económico através de regras, previsibilidade e integração comercial.
Como sublinhou a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, trata-se de uma escolha deliberada por parcerias de longo prazo. Economicamente, isso traduz-se na tentativa de garantir acesso estável a mercados, matérias-primas e oportunidades de investimento num sistema internacional cada vez mais volátil.
Um acordo de grandeza, mas não automático
Em termos económicos, o acordo UE–Mercosul é de uma escala raramente observada. Contudo, a sua materialização plena dependerá da ratificação política, da aceitação social e da capacidade de ambos os blocos em transformar ganhos potenciais em crescimento efectivo.
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p style="margin-top: 0in;text-align: justify;background-image: initial;background-position: initial;background-size: initial;background-repeat: initial;background-attachment: initial">Mais do que um impulso imediato, o acordo deverá ser lido como uma aposta estratégica de médio e longo prazo, cujo verdadeiro impacto será medido não apenas em volumes de comércio, mas na forma como redesenha as relações económicas entre a Europa e a América do Sul.
Fonte: O Económico






