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Wednesday, January 21, 2026
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Geopolítica | Tensões no Árctico Abalam Relação Transatlântica

Europa reage em bloco após pressão dos EUA sobre a Gronelândia e ameaça de tarifas a aliados

A Europa reagiu com inusitada rapidez e unidade após o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar sanções e ameaças tarifárias contra países europeus que rejeitem qualquer reivindicação norte-americana sobre a Gronelândia, território autónomo sob soberania dinamarquesa. O episódio marca uma escalada sem precedentes nas tensões transatlânticas e reacende o debate sobre a solidez da NATO num contexto de crescente competição geopolítica no Árctico.

O anúncio norte-americano ocorreu no sábado, na sequência de protestos de grande dimensão em Nuuk, capital da Gronelândia, onde cerca de um quarto da população se manifestou contra qualquer cenário de anexação pelos Estados Unidos. A reacção europeia foi imediata: em Bruxelas, embaixadores da União Europeia reuniram-se de emergência, reconhecendo o carácter excepcional da ameaça e os seus potenciais efeitos sistémicos sobre a segurança colectiva.

No Reino Unido, o Primeiro-Ministro Keir Starmer alertou directamente Washington de que “a imposição de tarifas a aliados por razões ligadas à segurança colectiva da NATO é errada”. Em Paris, o Presidente Emmanuel Macron classificou a ameaça como “inaceitável”, sublinhando que a soberania europeia não será condicionada por intimidação ou pressão económica.

Mesmo líderes tradicionalmente próximos da actual Administração norte-americana alinharam com a crítica. A Primeira-Ministra italiana Giorgia Meloni considerou a iniciativa um “erro”, frisando que penalizar aliados que contribuem para a segurança da Gronelândia mina a coesão estratégica do bloco ocidental.

Uma frente europeia invulgarmente coesa

Oito países europeus, incluindo Reino Unido, Alemanha e França, divulgaram uma declaração conjunta alertando que ameaças tarifárias “enfraquecem as relações transatlânticas e arriscam uma perigosa espiral descendente”. A liderança das instituições europeias reforçou o tom. O Presidente do Conselho Europeu, António Costa, anunciou a convocação de uma reunião extraordinária para avaliar os próximos passos, enquanto a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, advertiu que tais medidas podem produzir o efeito inverso ao pretendido, fortalecendo adversários estratégicos.

O Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, confirmou contactos directos com Trump e indicou que o tema será aprofundado nos encontros de Davos, sinalizando a gravidade da crise para a Aliança Atlântica.

Gronelândia, Árctico e a lógica da força

A Administração norte-americana justifica a pressão sobre a Gronelândia com argumentos de segurança estratégica, invocando a necessidade de conter a presença crescente da China e da Rússia no Árctico e de reforçar sistemas de defesa antimíssil, como o chamado “Golden Dome”. Especialistas, contudo, sublinham que os Estados Unidos já dispõem de amplos direitos militares na ilha ao abrigo do acordo de 1951 com a Dinamarca, incluindo a operação da base espacial de Pituffik.

Para líderes europeus, o unilateralismo norte-americano está a produzir ganhos estratégicos indirectos para Moscovo e Pequim. A Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, afirmou que divisões entre aliados apenas reforçam adversários comuns, enquanto o Primeiro-Ministro espanhol Pedro Sánchez advertiu que qualquer uso da força contra território europeu representaria “o golpe final” na credibilidade da NATO.

Comércio e segurança em rota de colisão

Um dos danos colaterais imediatos da crise poderá ser o acordo comercial UE-EUA alcançado no ano passado, cuja ratificação parlamentar estava prevista para esta semana. O líder do maior grupo no Parlamento Europeu, Manfred Weber, já sinalizou que, nas actuais circunstâncias, a aprovação não é politicamente viável.

Mais profundamente, o episódio reflecte uma transformação estrutural da política externa norte-americana, na qual a relação transatlântica deixa de ser vista como pilar indispensável da segurança global dos Estados Unidos. Documentos estratégicos recentes de Washington questionam explicitamente a capacidade futura de certos países europeus se manterem como aliados fiáveis, adoptando uma retórica assente na força e no poder.

Um teste à autonomia estratégica europeia

Apesar da retórica firme, dirigentes europeus reconhecem que a construção de uma verdadeira autonomia estratégica em matéria de defesa e segurança é um processo longo, exigindo décadas de investimento e coordenação. Até lá, a crise em torno da Gronelândia surge como um teste decisivo à coesão europeia e à capacidade de resposta colectiva face a um aliado historicamente central, mas cada vez mais imprevisível.

Como recordava Winston Churchill, numa citação que ressoa no actual contexto: “Há apenas uma coisa pior do que lutar com aliados — é lutar sem eles.”

Fonte: O Económico

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