27.1 C
New York
Friday, January 23, 2026
InícioSaúdeA saúde como percurso fragmentado

A saúde como percurso fragmentado

Por: Gelva Aníbal

No debate sobre a saúde pública no País, a atenção tende a concentrar-se na falta de infraestruturas, de medicamentos ou de recursos humanos. Menos visível, mas igualmente determinante, é a forma como o doente percorre o sistema: de unidade em unidade, de técnico em técnico, muitas vezes sem continuidade clínica nem coordenação efectiva. A saúde transforma-se, assim, num percurso fragmentado.

Para muitos cidadãos, o contacto com o sistema começa num centro de saúde periférico, segue para um hospital distrital, depois para uma unidade provincial e, por vezes, termina num hospital central. Em cada etapa, os dados clínicos raramente acompanham o doente de forma estruturada. Exames são repetidos, diagnósticos reavaliados, tratamentos interrompidos ou alterados sem uma leitura integrada do historial. O que resulta em um processo que consome tempo, recursos, confiança e que pode levar a morte do doente pela tardia intervenção rápida.

Esta fragmentação não decorre apenas de limitações técnicas, está associada à ausência de sistemas eficazes de referência e contra-referência, à fraca integração entre níveis de atendimento e à dependência excessiva de registos manuais. Num contexto em que a mobilidade dos pacientes é elevada e os serviços estão sobrecarregados, a continuidade do cuidado acaba por ser uma excepção, não a regra.

Para o doente, esta realidade traduz-se em incerteza, cada nova consulta implica recomeçar a explicação da doença, refazer exames e adaptar-se a orientações que nem sempre dialogam entre si. Para os profissionais de saúde, significa trabalhar com informação incompleta, o que limita decisões clínicas e aumenta o risco de erros ou atrasos terapêuticos.

A fragmentação do percurso também tem custos invisíveis. Internamentos prolongados, agravamento de quadros clínicos que poderiam ser controlados precocemente e maior pressão sobre serviços já saturados. Num sistema com recursos limitados, a falta de integração não é apenas um problema organizacional, é um factor que compromete a eficiência global da resposta em saúde.

A discussão sobre o futuro do sector não pode, por isso, restringir-se à expansão física de unidades sanitárias ou ao aumento pontual de financiamento. É necessário olhar para o modo como o sistema funciona internamente, como os diferentes níveis comunicam entre si e como o percurso do doente é pensado do início ao fim.

A saúde pública não se mede pela existência de serviços, mas pela forma como estes se articulam. Enquanto o cuidado continuar a ser prestado em episódios isolados, e não como um processo contínuo, o sistema permanecerá funcional, mas incompleto. E é nesse intervalo entre uma consulta e outra, entre um serviço e o seguinte, que muitos problemas de saúde se agravam silenciosamente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Vídeo da ANE revela danos causados pelas inundações na N1

0
Um vídeo disponibilizado hoje pela Administração Nacional de Estradas (ANE) revela cinco cortes enormes e ainda com forte corrente das águas na N1, no...
- Advertisment -spot_img