Resumo
A Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) considera positiva a redução da taxa de juro pelo Banco de Moçambique, mas alerta para os desafios persistentes como os choques climáticos, fragilidades estruturais e a dívida pública interna. O setor empresarial moçambicano enfrenta um ambiente adverso, com impactos das cheias, fragilidades estruturais e restrições financeiras. A redução da taxa de juro foi vista com cautela pelo setor privado, dada a magnitude dos desafios enfrentados pelas empresas. A CTA defende uma intervenção mais ativa no Mercado Cambial Interbancário para aliviar a pressão cambial e criar um ambiente estável para as empresas. Os impactos das cheias afetam infraestruturas, cadeias de abastecimento e produção, fragilizando setores dependentes de redes de transporte eficientes e de energia regular.
O sector empresarial moçambicano continua a enfrentar um ambiente económico adverso, marcado por choques climáticos recorrentes, fragilidades estruturais e restrições financeiras, apesar do recente alívio monetário promovido pelo Banco de Moçambique. A Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) considera positiva a redução da taxa de juro de política monetária, mas sublinha que os impactos das cheias e o agravamento da dívida pública interna continuam a limitar o potencial de recuperação da economia real.
Alívio monetário insuficiente perante choques estruturais
A decisão do Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique de reduzir a taxa de juro directora de 9,5% para 9,25% foi recebida com cautela pelo sector privado. Segundo a CTA, embora a medida constitua um sinal positivo, o seu impacto prático permanece limitado face à magnitude dos desafios enfrentados pelas empresas, resultantes de choques económicos acumulados nos últimos anos e agravados pelos efeitos das cheias recentes.
O próprio Banco de Moçambique justificou a redução moderada da taxa com a persistência de riscos inflacionários, o abrandamento da actividade económica e os impactos severos dos choques climáticos sobre a economia nacional, factores que continuam a condicionar a margem de actuação da política monetária.
Cheias afectam infraestruturas, cadeias de abastecimento e produção
De acordo com a CTA, os impactos das cheias estendem-se muito além dos prejuízos imediatos, afectando infraestruturas críticas, cadeias de fornecimento e a capacidade produtiva de numerosas empresas. Torres de transporte de energia continuam parcialmente submersas em algumas zonas, enquanto estradas e pontes danificadas dificultam a circulação de mercadorias e elevam os custos logísticos.
Este contexto fragiliza particularmente os sectores dependentes de redes de transporte eficientes e de fornecimento regular de energia, reduzindo a previsibilidade operacional e comprometendo o planeamento empresarial num ambiente já marcado por elevada incerteza.
Pressão cambial e apelo a maior intervenção no mercado de divisas
Para maximizar os efeitos positivos da política monetária sobre a economia real, a CTA defende que a redução da taxa de juro deve ser acompanhada por uma actuação mais activa no Mercado Cambial Interbancário. A confederação sugere um reforço das injecções de divisas com o objectivo de aliviar a pressão cambial, reduzir os custos de importação e criar um ambiente mais estável para o planeamento das empresas.
Segundo a organização, uma combinação mais equilibrada entre política monetária e gestão cambial poderia reforçar significativamente o impacto das medidas sobre o sector produtivo, num momento em que as empresas enfrentam custos elevados e margens comprimidas.
Dívida pública interna agrava restrições ao crédito
O agravamento da dívida pública interna surge como outro factor de pressão estrutural. Dados do Banco de Moçambique indicam que a dívida interna, excluindo contratos de empréstimo, leasing e passivos em atraso, atingiu 485 mil milhões de meticais, o equivalente a cerca de 7,5 mil milhões de dólares, representando um aumento de mil milhões de meticais face a Dezembro de 2025.
Para a CTA, este nível de endividamento limita a capacidade do sistema financeiro de canalizar recursos para o sector privado, afectando de forma particular as micro, pequenas e médias empresas, que dependem do crédito bancário para crescer, inovar e gerar emprego.
Sector privado reivindica papel central na reconstrução pós-emergência
Num outro eixo de intervenção, a CTA defende um maior envolvimento do sector privado nacional na reabilitação e reconstrução de infraestruturas pós-emergência. Num encontro de trabalho com o Pelouro de Infraestruturas, a confederação sublinhou a necessidade de soluções estruturais e sustentáveis face à recorrência de eventos climáticos extremos.
Entre as propostas em reflexão consta a revitalização da cabotagem marítima através do sistema Ro-Ro, utilizando navios-plataforma para o transporte de camiões entre regiões portuárias, reduzindo a pressão sobre a rede rodoviária. Está igualmente em análise a criação de uma alternativa interior à Estrada Nacional Número Um, actualmente exposta a ciclones e inundações nas zonas costeiras, opção considerada mais vantajosa a médio e longo prazo apesar do elevado custo inicial.
Recuperação económica exige coordenação e resiliência
A CTA sublinha que a recuperação sustentável da economia moçambicana exige políticas macroeconómicas mais coordenadas, maior disponibilidade de crédito ao sector produtivo, taxas de juro mais competitivas e um ambiente financeiro favorável ao investimento. Num contexto de choques climáticos recorrentes, a resiliência das infraestruturas e a inclusão efectiva do empresariado nacional nos projectos de reconstrução são apontadas como condições essenciais para relançar o crescimento económico e reforçar a base produtiva do país.
Fonte: O Económico





