Por: Sara Seda
No intrincado cenário da mobilidade urbana em Maputo, onde chapas disputam cada curva como se fosse um campo de batalha e o passageiro se transforma, de repente, em um estratega de alta tensão a querer chegar rápido ao destino, com olhos de águia, a calcular mentalmente quantos minutos está perder, existe um momento sublime que merece ser celebrado, e nada, nada mesmo, alegra mais o coração do passageiro do que ouvir o cobrador gritar, com aquela autoridade que só os veteranos da estrada possuem, “È só andar, bay!”
O drama? Não é apenas uma frase, é música para os ouvidos cansados de quem já perdeu preciosos minutos a espera do chapa negociar cada esquina, cada curva, cada passageiro extra que aparece do nada. Nos bairros mais afastados, onde a escassez de transporte transforma cada viagem numa epopeia, o passageiro sente a pressão do tempo pulsar nas veias, ele sabe que cada minuto perdido nas paragens não é apenas tempo, é vida que escapa entre os dedos.
E então, quando a chapa acelera e o cobrador solta o seu icônico “È só andar, bay!”, nesse instante, os rostos cansados se iluminam, os murmúrios de frustração se transformam em risadas contidas, a senhora que reclamava da música alta do rádio sorri, o estudante que está atrasado para a faculdade suspira aliviado, o senhor que insiste em pagar em moedas encontra, de repente, toda a paciência do mundo e até o mais atrasado dos passageiros sente-se protagonista de uma pequena vitória sobre o caos urbano, há quem diga que este instante é a quintessência da alegria urbana, o encontro do desejo do passageiro com a destreza do condutor.
Portanto, da próxima vez que estiver em um chapa em Maputo, onde um passageiro está a fazer cálculos que nem Einstein aprovaria, ouvir o cobrador declarar “È só andar, bay!”, não é apenas uma frase de comando, é um antídoto contra a frustração, uma ode à eficiência urbana e, acima de tudo, um lembrete de que, no fim, todos chegam ao destino, alguns atrasados, outros no horário.






