Por: Sara Seda
Em algumas bombas, ainda é madrugada e já há carros alinhados como se esperassem um espetáculo que nunca começa. Não há música, não há bilhetes, só silêncio, motores desligados e olhos cansados. O combustível virou personagem principal poderoso do quotidiano, com filas feita de pessoas com garrafas plásticas na mão, como quem vai buscar água a uma nascente caprichosa que decide quando existe.
Há quem leva banco, quem leva conversa, e quem leva fé! Muita fé. Quem chega cedo descobre rapidamente que não chegou cedo o suficiente. Um taxista encostado ao volante comenta, meio a rir, meio a desistir: “Hoje trabalho aqui mesmo, a fazer fila. O frentista, já com o humor calibrado pela escassez, anuncia: “Hoje é só até metade.” Metade do tanque, metade da paciência, metade do dia perdido. “Full tanque?” pergunta alguém, com a ingenuidade de quem ainda acredita em finais felizes, e riso que se segue é colectivo, curto, seco, quase terapêutico.
A geopolítica entrou no nosso dia-á-dia sem pedir licença. Dizem que a causa vem de longe, do outro lado do mapa, onde o mundo se aperta num corredor estreito com nome de trava-línguas: Estreito de Ormuz. Quando ele fecha a cara, o petróleo não passa, quando o petróleo não passa, o mundo não anda. E, de repente, percebemos que a nossa vida também cabe num “estreito” Entre as bombas e o “acabou”.
No meio do aperto, alguém partilha informação: “Dizem que na próxima bomba ainda há.” A notícia corre mais rápido do que qualquer carro poderia correr, quando de repente, os cones vermelhos e brancos anunciam em silêncio que o combustível acabou, como se fosse rotina, deixando a sensação de que vivemos todos no mesmo tanque, uns com mais reserva, outros já na luz vermelha.






