Sol de Carvalho

A Revista Tempo já era, desde a Independência, uma revista de grande prestígio e considerada uma referência no jornalismo moçambicano. Desde antes da Independência, ela destacava-se por contestar o regime colonial e por reunir jornalistas de elevada qualidade, o que fez com que, no período pós-independência, se consolidasse como uma publicação influente e respeitada.

Apesar de publicarmos apenas 20 mil exemplares numa altura em que cerca de 90% da população era analfabeta, mantínhamos um espírito crítico e uma postura jornalística que procurava separar a propaganda da verdade factual, mesmo que essa fronteira nem sempre fosse clara. Nós, jornalistas muito formados e experientes, esforçávamo-nos para esclarecer essa linha.

Quando ingressei na revista, fiquei no Serviço Internacional, trabalhando com colegas como José Pinto dos Santos, Albino Magaia, Oriosa Pena, Narcísio Castanheira, Fernando Manuel, Kok Nam e outros nomes fortes do jornalismo moçambicano da época.

Sob a direção de Mia Couto, procurámos manter a linha editorial original, mas evitando polémicas desnecessárias. Introduzimos também elementos inovadores: fortalecemos a secção “Carta dos Leitores”, que chegava a receber cerca de 400 cartas por semana; usamos mais expressivamente ilustrações e fotografias; e continuámos com as grandes reportagens e análises profundas que sempre caracterizaram a publicação.

A nova equipa também recebeu apoio gráfico e técnico, o que nos permitiu produzir livros e melhorar a comercialização da revista. Participei nessa área, aprendendo e colaborando com profissionais como Eugênio Aldasse, reforçando assim o papel da Tempo como espaço de formação e inovação dentro do jornalismo moçambicano.

Além de trabalhar na área técnica, ajudava no enquadramento visual das páginas da revista, um exercício que mais tarde me seria muito útil no cinema. Apesar de Mia Couto me ter pedido para assumir um cargo de direção, preferi manter-me apenas no trabalho editorial, porque queria estar disponível para, a qualquer momento, seguir o caminho do cinema.

Naquela época, ler a Revista Tempo era uma leitura quase obrigatória para quem sabia ler. Destacava-se por oferecer análises profundas e por procurar aproximar-se da verdade numa altura em que não existia liberdade de imprensa. Ainda assim, conseguimos manter uma postura mais crítica e informativa do que outros órgãos, sem nunca nos posicionarmos como oposição, até porque tal não era permitido.

A Revista Tempo tornou-se mais aceitável entre a intelectualidade justamente por não funcionar apenas como instrumento de propaganda. Procurávamos manter um equilíbrio sensato: nem oposição, nem submissão total, mas uma tentativa de fazer jornalismo sério dentro das limitações do período.

Apesar das dificuldades materiais, como a escassez de papel, a revista mantinha a sua regularidade e importância. Eu entrei oficialmente para a Tempo em março de 1979, integrando o Serviço Internacional e contribuindo para produzir conteúdos que analisavam a situação do país com profundidade.

O maior desafio do jornalismo na altura era “dizer a verdade sem ser de oposição”. Nós procurávamos produzir matérias relevantes, não meramente propagandísticas, sem ultrapassar os limites impostos pelo governo. Muitas reportagens exigiam investigação rigorosa, e arriscámos várias vezes ultrapassar esses limites, sempre tentando manter algum grau de independência.

Por outro lado, o Ministério da Informação, especialmente sob Jorge Rebelo protegia os jornalistas da Tempo, evitando que fôssemos punidos ou enviados para campos de reeducação, como acontecia com outros cidadãos. Essa proteção permitiu que continuássemos a desempenhar um papel decisivo na produção de relatórios, na análise da situação nacional e na cobertura profunda de visitas presidenciais, crises e acontecimentos relevantes.

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