Por: Gentil Abel
Falar da marrabenta sem mencionar Xidiminguana é deixar incompleta uma das mais importantes páginas da história da música moçambicana. Quando se procura compreender a evolução deste género musical, considerado o ritmo urbano mais popular do sul do país, torna-se inevitável reconhecer o papel desempenhado por um artista que, ao longo de mais de sete décadas, ajudou a construir a identidade cultural de Moçambique através da sua música, da sua persistência e da sua capacidade de preservar as raízes tradicionais.
Nascido como Domingos Matias Honwana, a 3 de Agosto de 1936, na localidade de Vuthu, distrito de Bilene, província de Gaza, Xidiminguana cresceu no seio de uma família de camponeses e viveu uma infância semelhante à de muitas crianças da sua geração, marcada pelo pastoreio de gado. Foi precisamente nesse ambiente rural que nasceu a sua ligação à música. Ainda jovem, aprendeu a tocar o "xigogogwani", uma guitarra artesanal construída com latas de azeite de cinco litros, um instrumento bastante comum nas comunidades do sul de Moçambique. Em 1949, começou a tocar uma viola feita de lata e fios de pesca e, nesse mesmo ano, conseguiu adquirir a sua primeira guitarra, trocando por ela um saco de milho de 50 quilogramas.
A sua aprendizagem foi inteiramente autodidata. Sem escolas de música ou formação académica, desenvolveu um estilo próprio de dedilhar a guitarra, primeiro na versão clássica e, mais tarde, na guitarra eléctrica. O resultado foi uma forma de tocar que parecia estabelecer um diálogo directo com o público, tornando-se uma das suas principais marcas artísticas e uma referência para várias gerações de músicos moçambicanos.
Ao longo dos anos, alguns classificaram Xidiminguana como pertencente à velha guarda da música nacional. No entanto, o próprio artista sempre rejeitou qualquer rótulo geracional, preferindo definir-se simplesmente como um artista moçambicano, cuja música ultrapassa fronteiras temporais e ritmos. Essa visão ajuda a compreender porque continua a ser uma figura respeitada por diferentes gerações e porque a sua obra permanece actual mesmo várias décadas depois de ter iniciado a carreira.
O contributo de Xidiminguana para a consolidação da marrabenta é um dos capítulos mais relevantes da cultura do país. Ao lado de nomes como Dilon Ndjindji e Fanny Mpfumo, ajudou a retirar este género musical da marginalidade dos bairros suburbanos durante o período colonial, levando-o aos grandes palcos nacionais através da antiga Rádio Clube de Moçambique. Esse percurso permitiu que a marrabenta deixasse de ser apenas uma expressão cultural localizada para se afirmar como um dos maiores símbolos da música moçambicana.
A importância da sua carreira também se mede pelo legado deixado através das suas composições. Músicas como "Xikona", "Nihlayisse" e "Nikhome Nkata" transformaram-se em referências incontornáveis do cancioneiro popular moçambicano, atravessando gerações e permanecendo vivas na memória colectiva do país. Mais do que simples canções, estas obras representam parte da história, dos costumes e da identidade cultural de Moçambique.
Por outro lado, a influência de Xidiminguana não se limita aos palcos. O seu trabalho tornou-se objecto de estudo académico, contribuindo para investigações sobre o papel educativo da música e servindo de inspiração para artistas que procuraram modernizar os ritmos tradicionais sem perder a sua essência. Essa capacidade de unir tradição e renovação explica, em parte, a permanência da sua relevância ao longo do tempo. A longevidade da sua carreira é outro aspecto que merece reflexão. Galardoado com vários Prémios Carreira e mantendo-se activo mesmo ao atingir a histórica marca dos 90 anos de idade.
Por fim, torna-se importante preservar a memória daqueles que construíram os alicerces da música nacional. Valorizar Xidiminguana não significa viver apenas do passado, mas reconhecer que nenhuma cultura se fortalece quando esquece aqueles que lhe deram identidade. Afinal, falar da marrabenta sem mencionar Xidiminguana não será ignorar uma das figuras que mais contribuíram para transformar este ritmo num dos maiores símbolos da cultura moçambicana?





