Por: Gelva Aníbal
As chuvas intensas que caem nos últimos dias, não trouxeram apenas água. Trouxeram à superfície uma cidade mal preparada para se enfrentar a si própria. As ruas transformadas em rios, os bairros submersos e as casas cercadas por águas paradas, não são sinais de um fenómeno extraordinário, mas de um problema que se arrasta há décadas. O problema, porém, não reside na intensidade das chuvas, reside, sobretudo, na ausência persistente de um sistema de saneamento urbano funcional.
Não é aceitável que, passados mais de cinquenta anos, a cidade continue sem um sistema de drenagem capaz de responder a fenómenos que já não são excepcionais. As chuvas fortes não são novidade, nem um acontecimento imprevisível. O que se repete, ano após ano, é a incapacidade de escoar as águas pluviais de forma eficaz, transformando cada período chuvoso num episódio de crise urbana.
Em muitos pontos da cidade, as valas que deveriam conduzir a água não existem, no seu lugar, erguem-se casas. O espaço que deveria proteger tornou-se habitado, como se o risco pudesse ser ignorado ou empurrado para a estação seguinte. Com isso, a água acumula-se, estagna e permanece, transformando o quotidiano em espera, espera que a água baixe, que o cheiro diminua, que a vida retome um ritmo mínimo.
Há bairros onde as marcas das chuvas anteriores ainda são visíveis, em alguns, a água nem chegou a desaparecer. Meses depois, continua ali, silenciosa e imóvel, como se fosse uma paisagem ou mesmo um lembrete de que nada foi feito para escoá-la. A estagnação não é só física, é também institucional pois o tempo passa, as estações mudam, mas a resposta mantém-se ausente.
A responsabilização não pode ser diluída no tempo nem dispersa em discursos genéricos. A gestão municipal, os serviços técnicos de saneamento, as entidades responsáveis pelo ordenamento do território e a fiscalização urbana falharam de forma continuada. Falharam ao permitir construções em zonas de drenagem, ao não executar planos anunciados e ao limitar a actuação à resposta de emergência, sempre tardia e insuficiente.
Viver rodeado de água parada, para além de ser desconfortável é também conviver diariamente com o risco de doenças, com a degradação do ambiente e com a normalização de condições que nunca deveriam ser normais.
As enchentes em Maputo não são só um fenómeno natural, são um reflexo directo de décadas de decisões adiadas, prioridades mal definidas e ausência de uma visão integrada para o saneamento urbano. A chuva passa, mas as consequências permanecem. E a cada nova época chuvosa, a cidade confirma que o problema não está no céu, mas no chão que não foi preparado para receber a água, deixando assim famílias em condições críticas.






