O salário mínimo chega sempre com dificuldades graves em matemática. Sabe entrar na conta, mas não sabe fazer contas à vida. No primeiro dia do mês, aparece cheio de confiança, inteiro, direitinho, quase vaidoso. Dá até para respirar fundo e pensar: “Este mês vai dar”.
O extracto bancário não mente, as despesas básicas têm prioridade absoluta. Primeiro, o rancho, sempre ele: uma história de sobrevivência que exige manobras estratégicas, comparações de preços e promoções milagrosas. Carne e peixe, aparentemente, tornaram-se artigos de luxo, enquanto arroz e feijão assumem o papel de protagonistas da dieta nacional, salvo se intercalados de algumas verduras. E o transporte? Ah, esse já está lá, firme, exigindo passagem, pois trabalhar é preciso, mas chegar ao trabalho também paga-se.
Me pergunto: será que o salário não consegue se defender? Perde números, perde força, perde a capacidade de responder quando o chamamos e nunca engorda. É quase um fenómeno meteorológico: o salário chega, mas as despesas chegam primeiro e com mais força, o cidadão faz malabarismos dignos de circo, comparações de preços, contas de cabeça, enquanto isso, o calendário continua firme, implacável, com a conta bancária em modo contemplativo, vazia, silenciosa, quase filosófica como o rancho que acaba sempre na pior altura.
No fim, quem consegue ver umas moedinhas no extracto sorri, pois é quase um milagre. Porque o salário, coitado, mal pisa na conta, já que as dívidas marcaram território. Enquanto o salário não aprender a contar, resta-nos rir e manter a esperança de que, um dia, o fim do mês e o fim do dinheiro coincidam. Afinal, até então, para muitos sobra mês e não sobra dinheiro.






