Por: Gelva Aníbal
As cheias registadas no início deste ano em várias regiões do país deixaram marcas profundas que vão muito além das infraestruturas danificadas e das famílias desalojadas. No meio da água acumulada e da lama, perderam-se campos agrícolas inteiros, colheitas em fase de maturação e milhares de cabeças de gado, comprometendo a base de sobrevivência de comunidades maioritariamente rurais.
Províncias como Gaza, Maputo e Sofala registaram a submersão de extensas áreas de cultivo. Milho, arroz, hortícolas e mandioca desapareceram em poucos dias, anulando meses de trabalho de pequenos produtores que dependem da agricultura de subsistência para garantir alimento e rendimento. Para muitas famílias, o impacto não se limita à presente campanha agrícola, mas projetar-se nos meses que se avizinham.
A redução da oferta de alimentos nas zonas afectadas tende a pressionar os mercados locais, com reflexos nos preços dos produtos básicos. Em contextos de rendimentos frágeis, qualquer aumento representa uma ameaça directa ao acesso à alimentação, sobretudo para famílias que já vivem em situação de vulnerabilidade.
A agricultura absorve um número significativo de trabalhadores sazonais, envolvidos na preparação da terra, na colheita e na comercialização. Com os campos alagados e as culturas perdidas, estas oportunidades desaparecem, deixando centenas de famílias sem fontes alternativas de rendimento num curto espaço de tempo.
A perda de gado agrava ainda mais o cenário, para muitos agregados familiares, os animais funcionam como uma reserva económica informal, utilizada para enfrentar emergências. A sua morte representa não apenas um prejuízo imediato, mas também a eliminação de um mecanismo essencial de resiliência. Sem esquecer que faziam, igualmente, destribuições para outras províncias e cidades, agravando assim a situação da fome até para regiões que não foram afectadas.
A quebra da produção agrícola e a perda de meios de subsistência tendem a intensificar a migração interna, aumentando a pressão sobre os centros urbanos, onde o desemprego, o acesso à habitação e aos serviços sociais já constituem desafios persistentes.
A agricultura no país é a base do sustento de uma parte significativa da população, a recorrência de eventos climáticos extremos expõe limitações estruturais na capacidade de prevenção e recuperação. As respostas de emergência são indispensáveis, mas insuficientes para mitigar impactos de médio e longo prazo.
Enquanto os campos permanecem submersos, cresce a incerteza sobre o futuro imediato de milhares de famílias. O que hoje se apresenta como destruição agrícola poderá, nos próximos meses, traduzir-se em fome, desemprego e maior fragilidade social, um custo silencioso que raramente se mede no momento da inundação.






