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Thursday, January 22, 2026
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Dez pessoas da mesma família morrem afogadas na Ilha Josina Machel 

Dez pessoas da mesma família morreram afogadas ao tentar sair da Ilha Josina Machel em busca de um lugar seguro para estar. Centenas de pessoas continuam a ser resgatadas na ilha diariamente e há quem ainda não teve resgate, passados oito dias dentro da água.

As inundações tendem a alastrar-se em vários cantos da Província de Maputo, deixando milhares de pessoas sitiadas, mesmo depois dos apelos para retirada das zonas de perigo.

É o caso da Ilha Josina Machel, no distrito de Manhiça, onde centenas de pessoas continuam sitiadas e à espera de resgate. Para esta operação, é usado um helicóptero, que pousa a cada cinco minutos num campo aberto do Posto Administrativo 3 de Fevereiro.

São crianças no colo das suas mães, outras carregadas por voluntários, idosos que mal conseguem andar e trazem consigo trouxas, mas acima de tudo carregam muita dor e luto.

Algumas mulheres choram quando chegam ao local seguro, não de emoção por terem sido salvas, mas porque, mais do que perder tudo nas águas, perderam membros das suas famílias.

De uma só vez, morreram 10 pessoas da mesma família. “Perdi 10 pessoas. Estavam a bordo de um barquinho a tentar atravessar, mas este naufragou e todos morreram. São dois filhos, um deles tem 18 anos de idade, o outro tem 13, e alguns netos”, contou Julieta Matsolo, vítima das inundações na Ilha Josina Machel.

A dor é intensa no seio da família Matsolo, que nem mesmo o apoio de outras pessoas consegue consolar Julieta Matsolo, que, lamentando, diz que na Ilha Josina Machel “não há sítio nem para parar”.

São pessoas que estiveram no meio das águas por seis dias. Chegaram ao local seguro do posto administrativo 3 de Fevereiro, em Manhiça, completamente molhadas, com água a escorrer pelo cabelo e pelas roupas e a tremerem sem parar, não só de frio, mas do medo que os assolava por todos estes dias.

“De onde venho, a água está na altura do peito. Eu imaginava que talvez pudesse morrer estando lá”, revela Monsa Aléx, outra vítima.

Cada relato é uma história que até chega a ser difícil de acreditar. Afinal, é difícil imaginar alguém viver seis dias dentro da água e, para agravar a situação, com crianças.

“Colocaram blocos até ao nível do tecto para conseguirmos dormir com as crianças. Colocaram blocos também para conseguirmos cozinhar”, disse uma das vítimas.    

Neste processo de resgate, há crianças que chegam sozinhas e não sabem onde estão os seus pais. É o caso de Olívio José, que não sabe onde a família está e muito menos se está viva ou não.

Mas mais do que os resgatados, no posto administrativo de 3 de Fevereiro há um outro aspecto que chama atenção: muita gente no campo onde chegam os helicópteros. Aparentemente meros espectadores que querem ver o show dos helicópteros, mas não são pessoas que estão há dias à espera de ver os seus familiares descerem das aeronaves.

Sandra Sebastião, uma das afectadas, ficava ansiosa sempre que um helicóptero  chegava, porque a expectativa é que chegue sempre um familiar. Está no campo desde sexta-feira e conta que vai lá todos os dias, à espera de boas notícias.

“Estamos aqui todos os dias, à espera das nossas famílias que estão lá em Jamariá. Encontrámos alguém que nos disse que estão lá perto de uma companhia. As outras pessoas chegam amanhã (referindo-se a hoje), mas falta uma pessoa, a nossa avó”, contou.

E quando uma aeronave chega e não vê seus familiares, vem a desilusão. Porém, há quem tem tido sorte e reencontra quem esperava ver, tal como aconteceu com Fernando Sousa, que espera seu familiar.

“Estive muito mal, no coração, porque não estive com ele desde as seis. Não me sentia bem. Até mesmo para comer, não conseguia. Assim, agora que estou a ver a minha mãe, já estou mais tranquilo”, revelou, acrescentando ainda que não sabia se a mãe ia chegar.

Ao todo, na Ilha Josina, estavam mais de 600 pessoas, não há terra firme e, por isso, estavam todas dentro da água. Até esta quarta-feira, já tinham sido resgatadas mais de 300 pessoas.

O resgate continuou nesta quinta-feira, com a chegada à zona segura de mais pessoas vindas da Ilha Josina Machel e de outros pontos da região, onde as águas inundaram tudo e nenhuma terra firme há para contar história.

 

Nasce na Beira movimento solidário para apoio às vítimas das inundações

O sector empresarial e a sociedade civil da província de Sofala lançaram, nesta quinta-feira, uma campanha massiva de apoio às vítimas das inundações, através de um movimento solidário. Os apoios acontecem devido às intensas chuvas que assolam as regiões Sul e Centro do país, onde existem crianças a dormirem ao relento, pais sem saber como proteger os seus filhos, idosos que ficaram apenas com a esperança de que alguém lhes estenda a mão.

Foi diante desta realidade que foi criado, na cidade da Beira, um movimento solidário para com as vítimas das cheias que assolam o país.  O movimento solidário nasce de uma união da sociedade civil da província de Sofala, da Associação Comercial da Beira, Conselho Empresarial de Sofala e de vários cidadãos.

O movimento tem como objectivo levar apoios imediatos às famílias afectadas pelas inundações, nomeadamente alimentos, bens essenciais, materiais de abrigo, segundo deu a conhecer o porta-voz do movimento, Félix Machado.

“Cada gesto conta. Um saco de arroz, um cobertor, uma contribuição financeira pode significar uma refeição, uma noite segura, uma nova esperança. Os empresários moçambicanos sempre demonstraram responsabilidade social nos momentos mais difíceis do país. Hoje, essa força colectiva volta a ser chamada e devemos agir para garantir que a ajuda chegue com rapidez, dignidade e impacto real na população”, disse.

Félix Machado, presidente da Associação Comercial da Beira, que falava em nome do sector privado, indicou ainda que este movimento é inclusivo e construído em conjunto, transparente e humanitário guiado pelo espírito de entreajuda.   

“Não podemos controlar a chuva, mas podemos controlar a nossa resposta. A solidariedade é o nosso maior abrigo. Hoje, mais do que nunca, Moçambique precisa de união. Juntos pela vida, juntos por Moçambique.”

Refira-se que as chuvas que caem desde Outubro do ano passado e com maior incidência há cerca de um mês já mataram mais de uma centena de pessoas, deixaram centenas de famílias sem casas e sem os bens mais básicos e destruíram diversas infra-estruturas sociais.

Fonte: O País

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