Por: Sara Seda
Em Maputo, janeiro não é apenas um mês, é uma experiência espiritual. Depois de um dezembro cheio de brilho, praia, música, looks frescos, pratos quase cinematográficos e stories cheios de ostentação, janeiro aparece com a fatura na mão e a voz grossa: “Sentem-se. Vamos conversar.
Em janeiro, até os vendedores sabem que se subirem mais um metical correm o risco de passar o mês inteiro apenas a cumprimentar clientes… de longe. É também o mês em que bate a reflexão: “Para quê tanta selfie se o banco não aceita like como depósito?”
Quando o universo nos lembra que dezembro foi um exagero, que a vida não é só festas, que o salário tem limites… e que as verduras, que em dezembro ninguém queria nem ver, reaparecem com humildade e salvam vidas como verdadeiras heroínas verdes, super-alimentos recomendados por nutricionistas. o frango desapareceu mais rápido que salário no dia 1, não se vê nem penas; e o repolho, esse guerreiro verde, humilde e esquecido o ano inteiro, volta a ser rei da mesa moçambicana, torna-se a maior celebridade culinária da cidade. Entra em tudo: arroz com repolho, repolho refogado, repolho cozido, repolho com tomate (quando o tomate colabora), repolho à moda da casa… Se alguém perguntar o menu do dia em janeiro, a resposta possível é uma só: Rodeado de repolho.
Um pouco de arroz, duas verduras tristes a olhar para nós e um repolho que tenta encher espaço no prato como artista que tenta parecer grande no palco. É aquela fase em que todos prometem fazer dieta saudável. O moçambicano vira mestre da criatividade, descobre receitas que nem sabia que existiam, como: “Arroz com esperança” ou “repolho à la sobrevivência. Todos prometem que “no próximo dezembro vão controlar os gastos”. Mentira, nunca controlam.
Porque, no fundo, todo mundo sabe: fevereiro está ali a chegar, e com ele a falsa sensação de que os bolsos vão melhorar, no meio disso tudo, a lema de sobrevivência nacional ressoa: “Comer, come-se. Agora… como se come, é outra história.”






