Apesar de sinais de melhoria face a 2025, mais de metade dos economistas antecipa enfraquecimento das condições globais, num contexto marcado por incerteza sobre activos financeiros, dívida soberana elevada e realinhamentos no comércio internacional.
A economia global revela uma resiliência relativa num contexto de elevada turbulência, mas continua envolta em incerteza estrutural, com riscos concentrados nos preços dos activos, no nível da dívida pública e nas tensões geoeconómicas, segundo o mais recente Chief Economists’ Outlook do World Economic Forum. Embora a percentagem de economistas-chefes que antecipa um enfraquecimento da economia mundial tenha diminuído face a 2025, 53% dos inquiridos continuam a prever uma deterioração das condições no ano que se avizinha.
Resiliência Relativa, Mas Menos Optimismo Global
O inquérito, que reúne economistas-chefes dos sectores público e privado, indica uma melhoria moderada do sentimento global, quando comparado com Setembro de 2025, altura em que 72% dos respondentes esperavam um agravamento da conjuntura. Ainda assim, a maioria mantém uma postura cautelosa, reflectindo a persistência de choques estruturais e de incerteza quanto ao rumo da economia mundial.
Preços de Activos Sob Pressão e Incerteza Tecnológica
Um dos principais focos de preocupação prende-se com a valorização dos activos financeiros, em particular os associados à inteligência artificial (IA). Mais de metade dos economistas-chefes (52%) antecipa uma correcção nas acções ligadas à IA, enquanto 40% ainda esperam novas valorizações.
O relatório alerta que uma eventual queda abrupta destes activos teria efeitos de contágio significativos, com 74% dos inquiridos a considerar provável a propagação de impactos à economia global. As criptomoedas enfrentam perspectivas mais negativas, com 62% a antecipar novas quedas após a recente volatilidade, enquanto 54% consideram que o ouro poderá já ter atingido um pico, após fortes subidas.
Dívida Pública Aproxima-se de Limites Críticos
A gestão da dívida soberana emerge como um dos maiores desafios macroeconómicos para 2026. Cerca de um terço dos economistas-chefes manifesta preocupação com possíveis crises de dívida em economias avançadas, enquanto 47% consideram provável este cenário em economias emergentes.
Para lidar com níveis elevados de endividamento, a maioria antecipa que os governos recorrerão a maior inflação e aumentos de impostos como mecanismos de ajustamento. Em economias emergentes, mais de metade dos economistas admite a possibilidade de reestruturações ou incumprimentos da dívida num horizonte de cinco anos, um risco praticamente residual nas economias avançadas.
Crescimento Económico Diverge por Regiões
As perspectivas de crescimento para 2026 revelam uma acentuada divergência regional. A Ásia do Sul destaca-se como a região com melhor desempenho esperado, impulsionada pela Índia, enquanto o Leste Asiático e Pacífico mantém um crescimento moderado a robusto.
Os Estados Unidos apresentam uma melhoria face a 2025, com a maioria dos economistas a prever crescimento moderado, enquanto a China enfrenta um quadro misto, repartido entre crescimento moderado, forte e fraco. A Europa surge como a região com o panorama mais débil, com mais de metade dos economistas a antecipar crescimento fraco.
Comércio Global e Realinhamentos Geoeconómicos
O relatório sublinha ainda que o comércio e o investimento internacionais estão a ajustar-se a uma nova realidade geoeconómica. A maioria dos economistas espera uma maior proliferação de acordos bilaterais e regionais, num contexto de restrições tecnológicas persistentes e competição estratégica entre grandes blocos económicos.
Este realinhamento deverá influenciar fluxos de investimento directo estrangeiro, com expectativas de maior atracção de capitais para os Estados Unidos, enquanto a fragmentação do comércio global continua a ser um risco latente.
Um Quadro de Fundo Marcado por Riscos Estruturais
Em síntese, o Chief Economists’ Outlook aponta para uma economia global que resiste a choques imediatos, mas permanece vulnerável a ajustamentos nos mercados financeiros, pressões da dívida pública e mudanças profundas na arquitectura do comércio e da tecnologia.
Para decisores políticos e agentes económicos, o desafio de 2026 será navegar um ambiente de curto prazo incerto, sem perder de vista a necessidade de investir nos fundamentos de crescimento sustentável e inclusivo.
Fonte: O Económico






