Resumo
Um grupo de jovens lançou uma petição global para tornar o TikTok mais seguro para crianças e jovens, denunciando o "design tóxico" da plataforma. A petição já conta com mais de 170 mil assinaturas e critica a exposição de conteúdos prejudiciais à saúde mental dos utilizadores mais novos. Estes jovens, que cresceram nas redes sociais, alertam para o poder do algoritmo em promover desafios perigosos e conteúdos sensíveis. Eles não pedem o fim do TikTok, mas sim mais responsabilidade na sua utilização. O conceito de "design tóxico" refere-se à forma como as plataformas digitais são construídas para captar a atenção constante dos utilizadores, muitas vezes sem liberdade de escolha. Em Moçambique, a falta de educação digital estruturada e de políticas de proteção torna a juventude mais vulnerável a estes impactos negativos das redes sociais.
O debate sobre o impacto das redes sociais na juventude voltou a ganhar força depois de um grupo de quatro jovens ter lançado uma petição global intitulada “Torne o TikTok mais seguro para crianças e jovens”. O pedido, que já reúne mais de cento e setenta mil assinaturas, denuncia aquilo que chamam de “design tóxico”: uma estrutura digital construída para viciar, prender a atenção e expor crianças e adolescentes a conteúdos que podem prejudicar a saúde mental.
A crítica não surge de especialistas ou organizações da sociedade civil. Vem de jovens que cresceram dentro das plataformas e conhecem por dentro o poder silencioso do algoritmo. São eles que testemunham como o feed For You empurra conteúdos sensíveis, desde desafios perigosos a vídeos que abordam depressão, automutilação ou distorção da imagem corporal. Os jovens que assinaram a petição não pedem para acabar o TikTok. Pedem algo mais simples e mais urgente: responsabilidade.
O conceito de “design tóxico” descreve a forma como muitas plataformas são construídas para maximizar lucro através da atenção constante. O scroll infinito, as notificações permanentes, a personalização agressiva e a recolha intensiva de dados criam um ambiente em que a vontade do utilizador raramente é livre. A plataforma prevê o que se vai consumir e antecipa o desejo. A fronteira entre escolha e condicionamento torna se cada vez mais fina.
No contexto africano e moçambicano, este problema assume uma dimensão ainda mais preocupante. A juventude está cada vez mais conectada, mas isso não significa que esteja mais preparada. Muitas famílias desconhecem como funcionam os algoritmos. As escolas raramente abordam educação digital de forma estruturada. E o Estado ainda não definiu políticas claras para proteger menores em ambientes digitais. Este vazio entrega toda a responsabilidade às plataformas, que operam com lógicas globais distantes das realidades locais.
Em Moçambique, a presença crescente do TikTok é visível em todas as faixas juvenis, dos estudantes do ensino secundário aos jovens trabalhadores que encontram ali um espaço de escape, criatividade e humor. Mas para além da diversão, há também um risco silencioso: a exposição constante a conteúdos que moldam comportamentos sem que haja consciência crítica. A pressão para viralizar, para parecer perfeito, para viver num ritmo acelerado de aprovação e rejeição já afecta o bem estar psicológico de muitos jovens.
Ao denunciar o design tóxico, os jovens que lançaram a petição chamam atenção para um aspecto central: o problema não é apenas o que se consome, mas o modo como o conteúdo é empurrado. Um algoritmo que determina o que é relevante, o que aparece, o que se torna tendência e o que desaparece cria uma cultura digital onde poucos decidem por muitos. E quando estes “muitos” são crianças e adolescentes, a questão deixa de ser tecnológica e torna se ética.
A petição reforça a necessidade de discutir responsabilidade digital no espaço público. O que significa proteger crianças online? Como equilibrar liberdade de expressão com segurança emocional? Como evitar que a tecnologia se transforme num tutor silencioso que educa mais do que famílias e escolas? É uma conversa que Moçambique precisa de iniciar com urgência, especialmente porque a próxima geração já cresce dentro das telas, não ao lado delas.
Curiosamente, são os jovens os primeiros a exigir mudanças. Estão cansados de plataformas que prometem liberdade mas operam com lógicas de dependência. Estão atentos ao impacto emocional que um vídeo pode ter. Estão conscientes de que a tecnologia não é neutra. Estão a pedir limites que os adultos não souberam estabelecer.
E talvez seja esse o maior sinal de alerta. Quando adolescentes se levantam para pedir que o mundo digital seja menos tóxico, significa que o problema já passou do limiar. A resposta não pode resumir se a relatórios ou conferências. Exige políticas públicas, literacia digital, responsabilidade empresarial e sobretudo um debate honesto sobre o futuro de uma geração que não conhece fronteiras entre o real e o digital.
O design tóxico do TikTok é apenas uma face de um problema mais amplo: a infantilização algorítmica das sociedades. O desafio é saber se estaremos dispostos a ouvir estes jovens antes que a toxicidade se transforme em normalidade.





