Resumo
O Censo 2027 em Moçambique iniciou com a atualização cartográfica, marcando a transição para um censo digital com tablets e plataformas eletrónicas. Este censo, estimado em 107 milhões de dólares, é crucial para modernizar o sistema estatístico nacional e alinhar Moçambique com os censos digitais em África. A recolha de dados está prevista para agosto de 2027, com um censo piloto em 2026. A presidente do Instituto Nacional de Estatística destaca a importância da cartografia censitária para garantir a qualidade dos dados estatísticos. A transição para um modelo digital é vista como um avanço significativo na capacidade do Estado planificar o desenvolvimento económico e social do país, substituindo os questionários em papel por tablets para uma recolha de dados mais eficiente.
Moçambique Prepara Viragem Tecnológica Na Produção Estatística
Moçambique iniciou formalmente os preparativos operacionais do V Recenseamento Geral da População e Habitação (Censo 2027) com o lançamento da actualização cartográfica nacional, etapa considerada fundamental para identificar todas as áreas de enumeração e garantir a cobertura integral do território. O processo marca igualmente uma viragem histórica na produção estatística do país, uma vez que o próximo recenseamento será realizado integralmente em formato digital, com recurso a tablets, sistemas de georreferenciação e plataformas electrónicas de transmissão de dados.
A operação representa um dos maiores exercícios estatísticos e logísticos realizados em Moçambique e deverá mobilizar centenas de técnicos e recenseadores em todo o território nacional. A cartografia censitária constitui o primeiro grande exercício técnico desta preparação, envolvendo a identificação e georreferenciação de todas as unidades habitacionais, infra-estruturas e limites administrativos do país.
Segundo a presidente do Instituto Nacional de Estatística (INE), Elisa Mónica Magaua, esta fase é determinante para assegurar a qualidade final dos dados estatísticos que irão sustentar o planeamento das políticas públicas. “A cartografia censitária é a base sobre a qual se constrói todo o processo censitário. Dela dependem a planificação logística, a estimativa de recursos e a qualidade final das estatísticas produzidas”, afirmou.
Censo 2027 Representa Salto Estrutural Na Modernização Do Estado
A recolha de dados do próximo recenseamento nacional está programada para decorrer entre 1 e 15 de Agosto de 2027, sendo antecedida por um censo piloto previsto para Agosto de 2026, destinado a testar os questionários digitais, os sistemas tecnológicos e os procedimentos operacionais que serão utilizados no terreno.
Para o Ministério da Planificação e Desenvolvimento, a transição para um modelo digital representa um avanço significativo na capacidade do Estado planificar o desenvolvimento económico e social do país.
Segundo o director nacional de Políticas Económicas e Desenvolvimento, Teles Huo, a digitalização do recenseamento constitui um passo importante na modernização da administração pública. “Quarenta e seis anos depois teremos um censo totalmente digital. Isto representa um avanço significativo para a planificação do desenvolvimento”, referiu.
O novo modelo substituirá os tradicionais questionários em papel por tablets equipados com aplicações digitais de recolha de dados, permitindo validação imediata das respostas, transmissão electrónica da informação e monitoria centralizada da operação. Experiências internacionais indicam que este tipo de tecnologia permite reduzir significativamente o tempo de processamento dos resultados e melhorar a precisão das estatísticas produzidas.
Infra-estrutura Digital Continua A Ser Um Desafio Operacional
Apesar dos ganhos tecnológicos esperados, a transição para um censo totalmente digital coloca desafios logísticos importantes num país onde persistem assimetrias territoriais significativas no acesso à energia eléctrica, internet e redes de telecomunicações.
O Instituto Nacional de Estatística reconhece que o sucesso da recolha digital dependerá da capacidade de garantir condições mínimas de conectividade em todo o território nacional.
Segundo o porta-voz do INE, Pedro Duce, a fase cartográfica permitirá igualmente identificar as zonas onde será necessário recorrer a soluções alternativas de conectividade ou fornecimento de energia para garantir o funcionamento dos equipamentos digitais utilizados pelos recenseadores.
“O uso de tecnologias digitais requer internet e energia. Neste momento ainda não temos o conhecimento profundo de onde esses serviços existem e onde não existem. Por isso, a cartografia terá também a função de identificar zonas onde será necessário recorrer a soluções alternativas”, explicou.
Digitalização Dos Censos Torna-se Tendência Em África
A transição para censos digitais tem vindo a ganhar força em várias economias africanas e emergentes, alinhando-se com a chamada Ronda 2030 dos Censos das Nações Unidas, que incentiva os países a adoptarem sistemas digitais de recolha e gestão de dados estatísticos.
Nos últimos anos, países como Quénia, Malawi e Eswatini realizaram recenseamentos utilizando tablets, sistemas de informação geográfica e plataformas electrónicas de recolha de dados, reduzindo significativamente o tempo necessário para processamento dos resultados e melhorando a qualidade da informação estatística.
Em Moçambique, o processo conta com o apoio técnico do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), que está a apoiar o Instituto Nacional de Estatística na implementação de ferramentas de geoinformação, formação técnica e cooperação institucional com entidades internacionais especializadas em estatística.
Segundo a representante do FNUAP em Moçambique, Nélide Rodrigues, a cartografia censitária constitui uma etapa fundamental para assegurar a cobertura total da população. “Sem esta base sólida seria impossível garantir a cobertura total da população. Este trabalho assegura que cada moçambicano seja visível e contado”, afirmou.
Operação De Mais De 100 Milhões De Dólares
O orçamento global estimado para a realização do Censo 2027 ronda 107 milhões de dólares, valor que cobre todas as fases da operação, desde a preparação cartográfica até à divulgação final dos resultados.
O financiamento resulta de uma combinação de recursos do Governo moçambicano, apoio de parceiros internacionais e assistência técnica de organizações multilaterais. Até ao momento, o Governo já disponibilizou cerca de 15 milhões de dólares para as actividades iniciais, enquanto o Banco Mundial financia a fase de cartografia com aproximadamente 12 milhões de dólares.
População Moçambicana Pode Ultrapassar 35 Milhões Em 2027
O próximo recenseamento será igualmente determinante para actualizar a fotografia demográfica do país, num contexto de crescimento populacional acelerado nas últimas décadas.
Os dados oficiais indicam que Moçambique passou de 20,6 milhões de habitantes em 2007 para 28,8 milhões em 2017, sendo que as projecções apontam para uma população situada entre 35 e 36 milhões de habitantes em 2027.
Os novos dados permitirão avaliar tendências estruturais como a urbanização, a evolução da população economicamente activa e a dinâmica do dividendo demográfico, factores considerados determinantes para o planeamento económico e social do país.
Ao iniciar a actualização cartográfica do Censo 2027, Moçambique dá assim o primeiro passo para realizar o recenseamento mais tecnológico da sua história, criando uma nova base estatística para orientar decisões económicas e políticas públicas ao longo da próxima década.
Fonte: O Económico






