Por: Gentil Abel
O panorama económico e social de Moçambique voltou a preocupar especialistas após a divulgação do mais recente relatório do Banco Mundial. Segundo a instituição, o país figura entre os mais pobres do mundo, com um retrocesso significativo no bem-estar da população ao longo da última década.
De acordo com o documento, cerca de 81% dos moçambicanos vivem com menos de três dólares por dia, calculados em paridade de poder de compra, indicador usado para comparar o custo de vida entre países. Este nível de pobreza extrema coloca Moçambique numa posição crítica, superada apenas por algumas nações com situação semelhante.
No entanto, a pobreza não é o único desafio. O relatório destaca que a desigualdade social permanece elevada, com o coeficiente de Gini em torno de 50, um valor considerado alto a nível global. Isso significa que, quando o crescimento económico ocorre, os benefícios são concentrados em pequenas parcelas da população e em determinadas regiões, deixando a maior parte da sociedade de fora.
Desta feita, o período entre 2016 e 2025 é descrito pelo Banco Mundial como uma “década perdida”. Durante esses anos, o rendimento nacional bruto per capita caiu cerca de 8% em comparação com 2015, e projeta-se que dificilmente o país retorne a esse nível antes de 2028. Esta situação contrasta com o período entre 2003 e 2015, quando a pobreza caiu de 60% para 48%, apoiada por um crescimento médio anual de 7,2%.
Assim sendo, a reversão observada após 2015 está associada a uma combinação de choques consecutivos. Entre eles, o impacto das dívidas ocultas em 2016, os ciclones Idai e Kenneth em 2019, a pandemia de Covid-19 em 2020, a insurgência armada no norte do país e desequilíbrios macroeconómicos crescentes. Cada evento contribuiu para reduzir investimentos, travar a produção e enfraquecer os serviços públicos, tornando a recuperação lenta e desigual.
Outro desafio crítico é a criação de emprego. Todos os anos, cerca de 500 mil jovens entram no mercado de trabalho, mas apenas 30 mil conseguem empregos formais, empurrando a maioria para a agricultura de subsistência ou para o setor informal. Desta feita, mais de 70% da força de trabalho depende de uma agricultura marcada por baixa produtividade, vulnerabilidade climática e escassez de investimento. As mulheres enfrentam ainda maiores obstáculos, com menor acesso ao emprego formal e rendimentos inferiores, ampliando o fosso social e económico.
O relatório evidencia que a pobreza é mais intensa nas áreas rurais e nas províncias do norte e centro, especialmente Cabo Delgado, Niassa, Nampula e Zambézia. Em 2022, sete em cada dez pessoas pobres viviam em zonas rurais, onde o acesso a serviços básicos continua limitado. Por outro lado, Maputo apresenta os índices mais baixos de pobreza, resultado da concentração de investimentos, infraestruturas e empresas no sul do país.
Mesmo as projeções para os próximos anos não indicam alívio significativo. Entre 2026 e 2028, o crescimento económico deverá variar entre 1% e 2%, insuficiente para reduzir a pobreza, ainda abaixo do ritmo de crescimento populacional. O Banco Mundial alerta que, se nada for feito, até 2028 mais 1,8 milhões de pessoas poderão viver com menos de três dólares por dia.
Por fim, o relatório sublinha a necessidade de reformas estruturais. Sem medidas fiscais credíveis, investimentos consistentes na produtividade agrícola e um ambiente de negócios capaz de atrair capital e gerar empregos, Moçambique corre o risco de aprofundar a crise social, comprometendo a estabilidade e a confiança entre Estado e cidadãos.
O documento do Banco Mundial não se limita a números. Ele serve de alerta sobre o futuro do país: sem acções eficazes, a pobreza pode tornar-se uma realidade estrutural difícil de reverter, transformando-se de problema temporário em desafio persistente.






