Resumo
Moçambique é o país pior classificado entre os PALOP no Índice de Percepção da Corrupção 2025 da Transparência Internacional, com 21 pontos, refletindo fragilidades estruturais no combate à corrupção e na governação pública. Problemas como impunidade, fraca capacidade institucional e desconfiança dos cidadãos persistem, enquanto países como Angola registam melhorias. A Dinamarca lidera o índice globalmente, mas a organização alerta para a falta de liderança no combate à corrupção a nível mundial. O relatório destaca a necessidade de reformas profundas em Moçambique para garantir melhorias reais na governação e evitar um crescimento económico sem impacto positivo na qualidade de vida da população.
Moçambique surge como o país pior classificado entre os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) no Índice de Percepção da Corrupção (CPI) 2025, divulgado pela organização Transparência Internacional, confirmando a persistência de fragilidades estruturais no combate à corrupção e na governação pública.
Com 21 pontos, o país ocupa o último lugar do grupo, a par da Guiné-Bissau, num indicador que mede a percepção da corrupção no sector público. O resultado reflecte problemas recorrentes relacionados com impunidade, fraca capacidade institucional e desconfiança dos cidadãos em relação aos mecanismos de responsabilização do Estado.
Ainda que o relatório sublinhe que a corrupção não é um fenómeno exclusivo dos países africanos, ao apontar quedas nos indicadores de democracias consolidadas como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Suécia, o desempenho de Moçambique revela desafios mais profundos. Nestes países, a deterioração é associada a crises de confiança e enfraquecimento de mecanismos de controlo; em Moçambique, o problema mantém-se estrutural e prolongado.
Na sua 31.ª edição, o CPI avaliou mais de 180 países e territórios, evidenciando uma tendência global de declínio da boa governação. Um dado particularmente revelador é a redução acentuada do número de países com pontuação superior a 80 pontos, patamar considerado de integridade elevada. Se há uma década existiam 12 países nessa faixa, em 2025 restam apenas cinco, sinalizando um retrocesso generalizado nos padrões de transparência.
Entre os PALOP, Cabo Verde mantém-se como o melhor classificado, com 62 pontos, seguido por São Tomé e Príncipe, com 43 pontos. Angola, com 32 pontos, posiciona-se próximo da média da África Subsaariana, enquanto Guiné-Bissau e Moçambique permanecem nas posições mais baixas, evidenciando dificuldades comuns no fortalecimento das instituições públicas.
O relatório reconhece avanços pontuais, como o caso de Angola, que registou uma melhoria de 17 pontos desde 2015, atribuída a reformas legais e iniciativas de combate à corrupção. Contudo, a própria Transparência Internacional ressalva que muitos cidadãos continuam a considerar insuficientes esses esforços, apontando o medo de represálias como um dos principais entraves à denúncia de práticas ilícitas, um problema que também se verifica noutros países da região.
No plano global, a Dinamarca mantém a liderança do índice pelo oitavo ano consecutivo, com 89 pontos, seguida da Finlândia (88) e de Singapura (84). Ainda assim, a organização alerta para a ausência de uma liderança firme e coordenada no combate à corrupção à escala mundial, num contexto em que crises políticas, económicas e de segurança têm fragilizado os sistemas de controlo e fiscalização.
No caso de Moçambique, o resultado do CPI 2025 levanta uma questão central: até que ponto as estratégias anunciadas de combate à corrupção se traduzem em mudanças reais no funcionamento do Estado. Sem reformas profundas, independência efectiva das instituições e protecção dos denunciantes, o país corre o risco de continuar a crescer economicamente sem melhorar a qualidade da governação, aprofundando a distância entre o discurso oficial e a realidade vivida pela maioria da população






