Com estradas precárias, infraestruturas limitadas e um fluxo constante de pessoas e gado através de uma fronteira sem barreiras físicas, a região reflete a interligação crescente entre a instabilidade sudanesa e a fragilidade centro-africana.
Fuga e violência no Sudão
Desde o início da guerra no Sudão, dezenas de milhares de refugiados chegaram ao norte do país, trazendo consigo necessidades humanitárias urgentes e desafios adicionais para comunidades já vulneráveis.
Entre os refugiados está Nafeesa, nome fictício utilizado por razões de segurança, que abandonou uma cidade próxima de Cartum após o agravamento do conflito.
Depois de se deslocar para o Darfur do Sul com a família, o marido foi morto por homens armados que invadiram a sua casa durante a noite. Após o ataque, Nafeesa fugiu com o filho e outros familiares para fora do Sudão.
Histórias semelhantes multiplicam-se entre os recém-chegados, num conflito que, ao longo de quase três anos, empurrou milhões de pessoas para situações de emergência humanitária e deslocação forçada.

Uma fronteira aberta e vulnerável
Muitos refugiados atravessam para a República Centro-Africana através de Am Dafock, uma localidade fronteiriça sem cercas ou postos de controlo formais. Pessoas circulam a pé, em burros ou com rebanhos, numa área onde também transitam homens armados.
Autoridades locais relatam que, nos momentos mais críticos, milhares de residentes abandonaram as suas casas devido a ataques, pilhagens e violência atribuídas a elementos armados vindos do Sudão.
A presença da Minusca tornou-se central para a proteção de civis e a estabilização da zona fronteiriça.
O papel da Minusca
A missão das Nações Unidas na República Centro-Africana foi destacada em 2014, na sequência da guerra civil no país, com um mandato centrado na proteção de civis e no apoio à restauração da autoridade do Estado. No norte, cerca de 900 capacetes azuis estão destacados, incluindo centenas em Birao e Am Dafock.
Os responsáveis da missão referem que o contexto continua marcado por limitações logísticas, isolamento sazonal devido a cheias e uma presença estatal ainda em reconstrução, fatores que dificultam a resposta a crises simultâneas.

Tensões locais e recursos disputados
Para além da insegurança armada, as tensões têm sido alimentadas pela competição por terras e recursos entre pastores sudaneses em fuga, que deslocam gado para sul, e agricultores centro-africanos cujos campos se situam ao longo das rotas tradicionais de transumância.
O aumento de conflitos, incluindo casos de violência sexual e homicídios, levou a uma deterioração da convivência entre comunidades.
Em resposta, a Minusca facilitou, em outubro de 2025, um diálogo comunitário transfronteiriço que reuniu líderes locais, representantes religiosos, comerciantes e mulheres.
O encontro resultou num acordo local que proíbe o porte de armas, reafirma corredores de transumância e estabelece mecanismos comunitários para resolver disputas.
Refugiados em Birao
Atualmente, mais de 27 mil refugiados sudaneses vivem em Birao e arredores, superando a população local estimada.
As autoridades e agências da ONU adotaram uma abordagem de integração fora de campos formais, permitindo que refugiados vivam junto das comunidades anfitriãs, com apoio em abrigo, alimentação, saúde e educação.
No entanto, a pressão sobre serviços básicos, como água e saúde, aumentou significativamente, num contexto de financiamento humanitário limitado.

Perspectivas incertas
Apesar de alguns sinais de estabilização ao longo da fronteira, episódios de violência continuam a ocorrer, inclusive em áreas de acolhimento de refugiados.
Para muitos deslocados, o regresso ao Sudão permanece inviável, enquanto a permanência na República Centro-Africana depende de segurança duradoura, oportunidades económicas e apoio humanitário contínuo.
À medida que o conflito no Sudão prossegue, o norte da República Centro-Africana mantém-se numa situação de equilíbrio frágil, onde a proteção de civis, a gestão de fluxos migratórios e a convivência entre comunidades continuam a ser desafios centrais.
Fonte: ONU






