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Thursday, January 22, 2026
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Na fronteira da guerra: a instabilidade no norte da República Centro-Africana com o conflito no Sudão

A cidade de Birao, no extremo norte da República Centro-Africana, situa-se a menos de duas horas da fronteira com o Sudão e tornou-se um ponto central de acolhimento para pessoas que fogem do conflito iniciado em abril de 2023. 

Com estradas precárias, infraestruturas limitadas e um fluxo constante de pessoas e gado através de uma fronteira sem barreiras físicas, a região reflete a interligação crescente entre a instabilidade sudanesa e a fragilidade centro-africana.

ONU protege refugiados do Sudão na fronteira com a República Centro Africana

Fuga e violência no Sudão

Desde o início da guerra no Sudão, dezenas de milhares de refugiados chegaram ao norte do país, trazendo consigo necessidades humanitárias urgentes e desafios adicionais para comunidades já vulneráveis.

Entre os refugiados está Nafeesa, nome fictício utilizado por razões de segurança, que abandonou uma cidade próxima de Cartum após o agravamento do conflito. 

Depois de se deslocar para o Darfur do Sul com a família, o marido foi morto por homens armados que invadiram a sua casa durante a noite. Após o ataque, Nafeesa fugiu com o filho e outros familiares para fora do Sudão.

Histórias semelhantes multiplicam-se entre os recém-chegados, num conflito que, ao longo de quase três anos, empurrou milhões de pessoas para situações de emergência humanitária e deslocação forçada.

Uma mulher passa por um campo de refugiados na República Centro-Africana, com outra mulher agitando no fundo.

ONU News/Alban Mended de Leon

Nafeesa (no centro, por trás), cujo nome real foi alterado para proteger sua segurança, disse que veio de uma cidade fora de Cartum, a capital do Sudão, a mais de 700 milhas de distância.

Uma fronteira aberta e vulnerável

Muitos refugiados atravessam para a República Centro-Africana através de Am Dafock, uma localidade fronteiriça sem cercas ou postos de controlo formais. Pessoas circulam a pé, em burros ou com rebanhos, numa área onde também transitam homens armados.

Autoridades locais relatam que, nos momentos mais críticos, milhares de residentes abandonaram as suas casas devido a ataques, pilhagens e violência atribuídas a elementos armados vindos do Sudão. 

A presença da Minusca tornou-se central para a proteção de civis e a estabilização da zona fronteiriça.

O papel da Minusca

A missão das Nações Unidas na República Centro-Africana foi destacada em 2014, na sequência da guerra civil no país, com um mandato centrado na proteção de civis e no apoio à restauração da autoridade do Estado. No norte, cerca de 900 capacetes azuis estão destacados, incluindo centenas em Birao e Am Dafock.

Os responsáveis da missão referem que o contexto continua marcado por limitações logísticas, isolamento sazonal devido a cheias e uma presença estatal ainda em reconstrução, fatores que dificultam a resposta a crises simultâneas.

Um veículo de manutenção da paz da ONU patrulha uma área inundada na República Centro-Africana, com forças da MINUSCA navegando no terreno em meio a infraestrutura escassa e moradores locais nas proximidades.

ONU News/Alban Mended de Leon

No norte da República Centro-Africana, onde as inundações sazonais separam regularmente a região do resto do país, as forças da Minusca patrulham grandes distâncias com infraestrutura limitada

Tensões locais e recursos disputados

Para além da insegurança armada, as tensões têm sido alimentadas pela competição por terras e recursos entre pastores sudaneses em fuga, que deslocam gado para sul, e agricultores centro-africanos cujos campos se situam ao longo das rotas tradicionais de transumância. 

O aumento de conflitos, incluindo casos de violência sexual e homicídios, levou a uma deterioração da convivência entre comunidades.

Em resposta, a Minusca facilitou, em outubro de 2025, um diálogo comunitário transfronteiriço que reuniu líderes locais, representantes religiosos, comerciantes e mulheres. 

O encontro resultou num acordo local que proíbe o porte de armas, reafirma corredores de transumância e estabelece mecanismos comunitários para resolver disputas.

Refugiados em Birao

Atualmente, mais de 27 mil refugiados sudaneses vivem em Birao e arredores, superando a população local estimada. 

As autoridades e agências da ONU adotaram uma abordagem de integração fora de campos formais, permitindo que refugiados vivam junto das comunidades anfitriãs, com apoio em abrigo, alimentação, saúde e educação.

No entanto, a pressão sobre serviços básicos, como água e saúde, aumentou significativamente, num contexto de financiamento humanitário limitado.

O Major Sifamwelwa Akalaluka, uma força de paz da ONU da MINUSCA, fala com mulheres locais no Mercado Central de Birao, República Centro-Africana.

A major Sifamwelwa Akalaluka, que lidera os esforços de envolvimento comunitário da Minusca em Birao, fala com as mulheres no mercado da cidade

Perspectivas incertas

Apesar de alguns sinais de estabilização ao longo da fronteira, episódios de violência continuam a ocorrer, inclusive em áreas de acolhimento de refugiados. 

Para muitos deslocados, o regresso ao Sudão permanece inviável, enquanto a permanência na República Centro-Africana depende de segurança duradoura, oportunidades económicas e apoio humanitário contínuo.

À medida que o conflito no Sudão prossegue, o norte da República Centro-Africana mantém-se numa situação de equilíbrio frágil, onde a proteção de civis, a gestão de fluxos migratórios e a convivência entre comunidades continuam a ser desafios centrais.

Fonte: ONU

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