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Thursday, January 15, 2026
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Nowcasting Ganha Centralidade nas Economias em Desenvolvimento para Combater “Cegueira Estatística”

Uso de dados em tempo quase real transforma a leitura da actividade económica em países com fortes lacunas estatísticas, reforçando a capacidade de decisão de governos e bancos centrais.

Perante atrasos estruturais na produção e divulgação de estatísticas oficiais, as economias em desenvolvimento estão a adoptar crescentemente o nowcasting — a estimação da actividade económica em tempo quase real — como ferramenta de apoio à política económica. Segundo o Fundo Monetário Internacional , a pandemia da COVID-19 expôs de forma clara os custos de decisões baseadas em dados desactualizados, acelerando a adopção de métodos alternativos de medição económica, sobretudo em países de baixo rendimento.

De acordo com o FMI, em vários países africanos o Produto Interno Bruto continua a ser divulgado apenas em base anual, frequentemente com atrasos superiores a seis meses. Mesmo quando existem estimativas trimestrais, estas chegam demasiado tarde para orientar respostas a choques súbitos, tornando o nowcasting um complemento crítico às estatísticas tradicionais.

Da emergência à institucionalização

O conceito de nowcasting foi introduzido na análise macroeconómica no início dos anos 2000, mas ganhou relevância operacional durante a crise pandémica. Um estudo do FMI sobre “Forecasting the Present in Developing Economies” destaca o caso do Ruanda, onde o Governo e o banco central desenvolveram índices semanais de actividade económica, combinando dados de comércio externo, sistemas electrónicos de facturação e consumo de energia, para compensar a ausência de estatísticas frequentes.

Segundo o relatório, o Banco Nacional do Ruanda passou a integrar exercícios de nowcasting nas suas reuniões regulares de política monetária, permitindo rever projecções de crescimento e ajustar medidas macroeconómicas com maior rapidez. O FMI sublinha que esta experiência demonstra como países com recursos estatísticos limitados podem melhorar significativamente a qualidade da decisão económica com modelos relativamente simples.

Dados alternativos no centro da análise

A expansão do nowcasting tem sido viabilizada pelo uso de dados de alta frequência e fontes alternativas, muitas vezes fora dos sistemas estatísticos tradicionais. Entre os exemplos citados pelo FMI e pelo Bank for International Settlements estão pagamentos electrónicos, remessas, consumo de electricidade, dados aduaneiros quase em tempo real e imagens de satélite de iluminação nocturna, usadas como proxy da actividade económica.

O BIS refere que os bancos centrais passaram a privilegiar indicadores oportunos, mesmo que imperfeitos, em detrimento de dados mais precisos, mas tardios. Em economias com menor cobertura estatística, estes sinais tendem a ser particularmente informativos.

No Quénia, citado em estudos do FMI, o banco central consegue hoje inferir a trajectória do PIB poucas semanas após o início de um trimestre, combinando dados de consumo privado, turismo, comércio, remessas e energia. Esta abordagem reduziu significativamente o tempo necessário para avaliar o estado da economia.

Melhor política económica, menos pró-cíclica

Segundo o FMI, a principal vantagem do nowcasting reside na capacidade de identificar pontos de viragem da economia — o início de recessões ou recuperações — em tempo útil. Em países onde o PIB é conhecido apenas com grande atraso, as políticas monetária e fiscal tendem a ser pró-cíclicas, agravando choques em vez de os mitigar.

O Fundo destaca que esta ferramenta é particularmente relevante em economias vulneráveis a choques externos, flutuações nos preços das matérias-primas, volatilidade cambial e riscos climáticos, permitindo calibrar respostas com maior antecipação e menor custo económico e social.

Limitações, riscos e governação dos dados

Apesar do seu potencial, o nowcasting não é isento de riscos. O FMI e o BIS alertam que dados alternativos podem ser ruidosos, enviesados ou pouco representativos, exigindo cautela na sua interpretação. Modelos eficazes em períodos normais podem falhar em momentos de ruptura estrutural.

Persistem igualmente desafios ligados à privacidade, transparência, legitimidade institucional e governação dos dados, bem como à escassez de recursos humanos qualificados. Sem investimento sustentado em capacidade estatística, o nowcasting pode tornar-se tecnicamente sofisticado, mas institucionalmente frágil.

Uma transição inevitável

Ainda assim, o consenso entre instituições multilaterais é claro. Segundo o FMI, o futuro da política económica nas economias em desenvolvimento passa por uma integração mais estreita entre estatísticas oficiais e dados de alta frequência, com o nowcasting a assumir um papel crescente.

Num mundo marcado por choques recorrentes e elevada incerteza, “prever o presente” deixou de ser um exercício académico para se tornar um activo estratégico. Para os países em desenvolvimento, o nowcasting representa um passo decisivo para reduzir a assimetria de informação, reforçar a credibilidade das políticas públicas e melhorar a eficácia da governação económica.

Fonte: O Económico

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