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Tuesday, January 20, 2026
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O “MILAGRE” QUE TORNOU MOÇAMBIQUE NO CENTRO DA ATENÇÃO INTERNACIONAL

Por: Lurdes Almeida

O ano de 2026 estreou-se com chuvas torrenciais que fazem recordar o que aconteceu no ano 2000, durante as grandes cheias agravadas pela passagem do ciclone Eline. Tratou-se de uma tragédia nacional que chocou o mundo inteiro, levando o Governo moçambicano, na altura, a apelar à comunidade internacional por ajuda.

Inicialmente, o país solicitou cerca de 65 milhões de dólares para responder à emergência e apoiar a reconstrução. Mais tarde, devido à dimensão do desastre, esse valor foi revisto em alta, atingindo aproximadamente 160 milhões de dólares. Perante a gravidade da situação, vários países e organizações estenderam a mão ao país, mobilizando mais de 100 milhões de dólares em ajuda humanitária.

Foi nesse contexto que emergiu a história de Rosita, a menina que nasceu em cima de uma árvore, cercada pelas águas das cheias.

“Era um domingo à tarde, por volta das 16h00, quando as águas começaram a subir. Corremos para as árvores. Coloquei os meus dois filhos pequenos às costas e tentei subir, mas foi muito difícil. Éramos 15 pessoas ao todo e permanecemos ali durante quatro dias. Rezámos muito”, contou a mãe na altura, em declarações à Cruz Vermelha.

A imagem que correu o mundo comoveu consciências globais (doadores, governos e organizações internacionais) e colocou Moçambique no centro da atenção internacional. Graças a essa comoção, chegaram ao país toneladas de ajuda humanitária: dinheiro, alimentos, medicamentos, tendas, barcos, helicópteros e diverso apoio logístico, provenientes de vários países.

Na mesma linha de solidariedade, registaram-se também perdões, adiamentos de dívidas e a suspensão de cobranças que o país enfrentava, tudo em nome da recuperação, solidariedade e reconstrução nacional.

Conhecida como o “bebé milagre”, Rosita Salvador Mabuiango simbolizou a vida que resistiu mesmo quando tudo faltou. No entanto, 25 anos depois, essa mesma Rosita não resistiu a uma anemia. Segundo revelou a irmã, Rosita morreu “após uma longa doença”. Já o pai, Salvador Mabuiango, explicou que “Rosita morreu às 5h00 de hoje (12 de Janeiro de 2026), mas há dois meses que vinha lutando contra uma anemia”.

O país que a celebrou esqueceu-se dela!
O Governo que a mostrou ao mundo não a acompanhou!
A sociedade que aplaudiu a sua sobrevivência não garantiu a sua dignidade!

Em meio a este fenómeno, o discurso oficial prometeu que aquela tragédia seria um “ponto de viragem”. No entanto, passadas mais de duas décadas, o cenário mantém-se alarmantemente semelhante ao de 2000: casas inundadas, pessoas em telhados, crianças em risco, surtos de doenças, perdas materiais e mortes evitáveis. Continuamos, ainda hoje, sem o básico: drenagem urbana eficaz, valas, canais e sistemas adequados para o escoamento das águas pluviais.

Como se explica que, após tanta ajuda internacional, tanto dinheiro, tanto perdão de dívida e tantas promessas, várias cidades do país continuem a alagar todos os anos? A resposta é simples: a chuva não tem culpa de absolutamente nada. A chuva, as mudanças climáticas e até o lixo produzido pela população são factores previsíveis. O que continua a faltar é vontade política.

Este caso obriga-nos a uma reflexão incómoda: quando as câmaras se desligam, a solidariedade evapora-se e a responsabilidade dissolve-se em discursos vazios e promessas que nunca chegam ao chão da vida quotidiana.

A história de Rosita expõe uma sociedade que reage bem à tragédia imediata, mas falha em sustentar o cuidado a longo prazo. Somos rápidos a emocionar-nos e lentos a estruturar soluções. Optámos pela comoção em vez do compromisso, aplauso no lugar do acompanhamento e fotografia sem investimento social contínuo.

Como pode uma menina que simbolizou esperança morrer de uma condição tratável?
Como pode alguém que nasceu sob os holofotes da solidariedade internacional crescer sem acesso digno à saúde, alimentação adequada e um acompanhamento social consistente?

Não é justo. Rosita carregava uma história que o próprio país ajudou a construir e, depois, abandonou.

A morte desta guerreira deve incomodar-nos profundamente. Deve constranger instituições, decisores políticos e todos nós enquanto sociedade. Porque, quando uma bebé que nasceu como milagre morre por negligência, o problema não é individual, mas do pacto social que aceitamos como normal.

Rosita morreu! E com ela morreu, também, um pouco da narrativa confortável que gostamos de contar sobre nós mesmos.

Que a sua morte não seja apenas mais uma notícia triste, mas um espelho duro daquilo que somos e, sobretudo, daquilo que ainda insistimos em não mudar.

Como diz o ditado popular africano: “A casa que não se cuida, cai.”

Por isso, senhores governantes, Moçambique precisa de gestão, planeamento, execução e, sim, vergonha na cara. O país não precisa de mais discursos. Se governar é servir, então sirvam com competência. O povo tem pago, repetidamente, um preço demasiado alto pelas falhas estruturais do sistema de governação.

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