Fonte do sector ouvida pelo O.Económico assegura que o grupo espanhol não tomou qualquer decisão de desinvestimento, mas alerta para a perda de rentabilidade causada pela queda acentuada dos recursos e pela pesca ilegal.
O grupo espanhol Grupo Pecuánova desmentiu qualquer decisão de saída de Moçambique, esclarecendo que não está em curso nenhum processo de desinvestimento no País nem em qualquer outra geografia onde opera. A garantia foi dada por uma fonte do sector directamente ligada às operações, ouvida pelo O.Económico, que classificou como especulativa a informação que apontava para a venda das actividades de pesca de camarão em Moçambique.
Estado moçambicano seria o primeiro a saber
Segundo a fonte ouvida pelo O.Económico, qualquer decisão dessa natureza teria obrigatoriamente de ser comunicada, em primeiro lugar, ao Estado moçambicano, que detém 30% do capital, sendo accionista do projecto.
“Não é verdade que o grupo tenha tomado qualquer decisão relativamente aos negócios em Moçambique. Caso isso acontecesse, o primeiro a saber seria o próprio Estado moçambicano”, afirmou.
A mesma fonte esclarece que a informação agora desmentida teve origem em Espanha e ganhou tração internacional sem confirmação oficial junto da empresa ou das autoridades nacionais.
Queda abrupta da produção compromete rentabilidade
Apesar da clarificação quanto à continuidade do investimento, a fonte reconhece que o sector da pesca de camarão atravessa uma crise profunda e prolongada. Dados históricos indicam que, no início dos anos 2000, a quota anual rondava as 9.000 toneladas, enquanto actualmente a produção efectiva não atinge sequer 3.000 toneladas.
Com capturas reduzidas, custos elevados de combustível, taxas e manutenção das embarcações, a actividade tornou-se economicamente insustentável para grande parte dos operadores. Empresas como a Pescamar reduziram progressivamente a frota — de 26 para 12 embarcações — numa tentativa de minimizar perdas, após prejuízos significativos em 2024.
Desinvestimento no sector não equivale a decisão empresarial isolada
A fonte sublinha que várias empresas já abandonaram a actividade ou operam de forma residual, como é o caso da Krustamoz e da Marbeira, não por decisões estratégicas isoladas, mas por inviabilidade económica da pescaria.
“O cenário do sector é, de facto, de desinvestimento, se nada for feito. Mas isso não significa que a Pecuánova tenha decidido sair”, frisou.
A resiliência do grupo espanhol ao longo de cerca de 40 anos em Moçambique é atribuída à adopção de embarcações de menor porte, mais adequadas à realidade do pesqueiro nacional e com menores custos operacionais.
Pesca ilegal e degradação ambiental agravam crise
Entre os principais factores apontados para o colapso do recurso destacam-se a pesca ilegal com artes nocivas — como chicocotas e redes mosquiteiras —, a destruição dos mangais, a poluição associada à exploração de areias pesadas e a sobrepesca em zonas críticas de reprodução.
Segundo a fonte, estas práticas impedem a regeneração natural do camarão, cujo ciclo de vida é curto e altamente dependente da protecção dos juvenis nos mangais e estuários. O risco sanitário associado à poluição costeira pode ainda comprometer o acesso aos mercados internacionais.
Apelo a medidas urgentes de gestão e fiscalização
A fonte defende a adopção imediata de medidas estruturais, incluindo a criação de santuários de pesca, reforço da fiscalização em zonas nevrálgicas e acção coordenada da Administração Pesqueira e do INAMAR.
“Estamos a falar de um recurso renovável. Se forem tomadas medidas sérias agora, em dois ou três anos é possível recuperar os mananciais”, sublinhou.
Clarificação afasta alarme, mas não os riscos
Fonte: O Económico






