Escalada do conflito com o Irão faz custos de cobertura de risco de guerra subir mais de 1000%, pressionando comércio energético e cadeias globais de abastecimento
Conflito no Golfo desencadeia choque nos seguros marítimos
A intensificação do conflito no Golfo Pérsico está a provocar um aumento abrupto nos custos de seguros marítimos, numa escalada que poderá repercutir-se no comércio global de energia e nos custos de transporte de mercadorias.
Os prémios de seguro para cobertura de risco de guerra associados à navegação na região registaram aumentos superiores a 1000% em alguns casos, reflectindo a crescente percepção de risco entre armadores, seguradoras e operadores do sector energético.
O agravamento das tensões na região seguiu-se a ataques aéreos contra o Irão e à subsequente ameaça de Teerão de atingir embarcações que tentem atravessar o Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais sensíveis da economia mundial.
Desde o início da escalada militar, vários navios já sofreram danos na área, contribuindo para um ambiente de elevada incerteza no sector do transporte marítimo internacional.
Estreito de Ormuz no centro do risco energético global
O Estreito de Ormuz constitui um verdadeiro ponto nevrálgico do sistema energético internacional.
Segundo dados do sector, mais de 20 milhões de barris de petróleo e combustíveis atravessam diariamente esta passagem estratégica, representando aproximadamente um quinto do consumo global de petróleo.
A interrupção ou limitação do tráfego nesta rota tem potencial para gerar fortes perturbações nos mercados energéticos, pressionando preços e afectando as cadeias globais de abastecimento.
Actualmente, cerca de 1.000 embarcações permanecem na região do Golfo Pérsico, muitas delas petroleiros e navios de gás, com um valor agregado estimado superior a 25 mil milhões de dólares.
Este nível de concentração de activos em zona de risco tem levado seguradoras e resseguradoras a rever rapidamente as condições de cobertura.
Custos de seguro sobem de forma exponencial
A rápida deterioração da situação de segurança levou o mercado de seguros marítimos a reagir quase de imediato.
Antes da actual escalada, o prémio típico de risco de guerra para um petroleiro rondava 0,25% do valor da embarcação. Com o agravamento do conflito, esse valor pode atingir cerca de 3%, o que representa um aumento de cerca de doze vezes.
Considerando que muitos petroleiros possuem valores entre 200 e 300 milhões de dólares, o custo de cobertura por viagem pode agora atingir aproximadamente 7,5 milhões de dólares, contra cerca de 625 mil dólares anteriormente.
Analistas estimam ainda que os danos já registados em embarcações possam gerar perdas na ordem de 1,75 mil milhões de dólares para o sector segurador.
Cadeias logísticas globais sob pressão
Para além do impacto directo no sector marítimo, os analistas alertam que a escalada dos custos de seguros poderá repercutir-se em toda a economia global.
O aumento do risco está a levar algumas empresas a reconsiderar rotas marítimas, com possíveis desvios de embarcações através do Cabo da Boa Esperança ou por corredores logísticos alternativos.
Estas alterações implicam maiores tempos de trânsito, custos logísticos adicionais e pressão inflacionista, especialmente em sectores dependentes do transporte de energia e matérias-primas.
A situação também pode levar resseguradoras a reduzir a capacidade de cobertura ou elevar os níveis de perdas que desencadeiam compensações, obrigando as seguradoras primárias a assumir maior exposição ao risco.
Governo norte-americano procura estabilizar o transporte energético
Face ao risco de perturbação prolongada no comércio de petróleo, a administração norte-americana está a estudar medidas para manter abertas as rotas marítimas no Golfo.
Entre as opções em análise está a possibilidade de escoltas da marinha dos Estados Unidos a petroleiros que atravessem o Estreito de Ormuz, bem como a mobilização de mecanismos de seguro de risco político e garantias financeiras para apoiar o transporte marítimo na região.
Contudo, analistas consideram que permanece incerta a eficácia dessas medidas e se os eventuais mecanismos de garantia abrangerão embarcações e cargas de todas as nacionalidades.
Enquanto isso, muitos armadores poderão ser obrigados a retomar as coberturas tradicionais de seguro, absorvendo prémios significativamente mais elevados num ambiente de risco crescente.
Fonte: O Económico





