A morte de Rosita, esta segunda-feira, aos 25 anos, no Hospital Rural de Chibuto, não encerra apenas uma vida jovem. Encerra um ciclo histórico que começou em 2000, no topo de uma árvore, no auge das cheias que devastaram o sul do país e marcaram uma geração inteira.
Rosita nasceu em circunstâncias extremas. A sua mãe, cercada pelas águas do Limpopo, deu-lhe à luz numa árvore, sem assistência médica, num momento em que a vida parecia suspensa entre a natureza em fúria e a fragilidade humana. O resgate aéreo, as imagens e os relatos correram o mundo. A criança passou a representar a vitória da vida sobre a tragédia, a esperança no meio do caos, a capacidade de resistir quando tudo parece perdido. Moçambique adoptou-a como símbolo.
Ao longo dos anos, a sua história foi evocada em discursos, reportagens, campanhas e memórias colectivas. Rosita deixou de ser apenas uma pessoa e passou a ser um ícone, uma narrativa de superação que ajudava o país a olhar para o passado e a reafirmar a sua resiliência. Mas entre o símbolo e a pessoa real foi-se abrindo um espaço silencioso, pouco discutido e raramente problematizado.
As informações hoje disponíveis indicam que Rosita convivia há anos com problemas de saúde, nomeadamente anemia, uma doença crónica que exige acompanhamento regular, vigilância clínica e acesso contínuo a cuidados. Foi internada, teve recaídas e acabou por falecer. A causa é médica, mas o contexto é social e institucional.
A pergunta que se impõe é simples e desconfortável. O país que a transformou em símbolo acompanhou, com a mesma intensidade, a sua vida concreta. O Estado que a exaltou como imagem de esperança garantiu, de forma sistemática, o seu direito à saúde, à protecção e à dignidade enquanto cidadã. Ou limitou-se a celebrar a história, deixando a pessoa entregue às mesmas fragilidades estruturais que afectam milhares de moçambicanos anónimos.
As reacções oficiais sublinham o valor simbólico da sua figura, o lamento pela perda, a memória do nascimento extraordinário. Tudo isso é legítimo. Mas falta ainda a reflexão mais profunda sobre o que este desfecho revela. Um país pode transformar uma criança num emblema nacional e, ao mesmo tempo, não conseguir assegurar que essa criança, já adulta, tenha um acompanhamento de saúde sólido, contínuo e eficaz.
A morte de Rosita expõe uma tensão antiga na nossa forma de lidar com as histórias que nos emocionam. Comovemo-nos, projectamos nelas esperança, orgulho e identidade, mas nem sempre transformamos essa emoção em responsabilidade duradoura. O símbolo é celebrado. A pessoa, muitas vezes, volta ao anonimato das carências estruturais.
Rosita nasceu como sinal de vida num dos momentos mais sombrios da nossa história recente. Morre agora num sistema que continua a lutar para garantir cuidados básicos a quem deles necessita. Entre o nascimento que mobilizou o mundo e a morte que revela fragilidades internas, fica uma lição incômoda. A esperança não pode viver apenas na memória e nos discursos. Precisa de ser sustentada por políticas, por instituições e por um compromisso real com a vida concreta das pessoas que um dia elevamos a símbolos nacionais.






